terça-feira, 28 de outubro de 2014

Lou(cura) ou ninguém quis ir comigo colar lambe-lambe.


Acho que tô ficando meio louca...

De repente, meu estado comedido se esvai, e deixa solta a outra. Não sei o que pode fazer, mas eu mesma se estivesse plena de minhas faculdades mentais, me afastaria.

Do nada uma vontade de teatro, um monólogo dramático, onde eu começaria falando de algo pífio do cenário, um armário, uma lâmpada, e de repente do pífio viria a epifania. Envolveria a plateia em um mistério, desentendido, uma confusão, loucura ou genialidade? Arte.

Arte é tudo o que eu queria fazer hoje. Hoje é meu dia arte e, veja só que triste, só tenho palavras. Mas que droga! Eu queria pintar, eu queria gritar, eu queria cantar. Queria provocar olhares estranhos: “mas o que essa louca tá dizendo? Pera ai, é louca? Não se deve dar crédito aos loucos, eles são só louco e nada mais. Melhor não prestar atenção, posso ficar louco também?”

Suor, sei que isso tem a ver com o corpo, só não sei onde. É um “farnizim”, um “frivião”, diabo é isso? Deus é que não é. Acho que tem mais a ver com o diabo mesmo. Aquelas risadas provocativas, sarcásticas, de quem te olha e sabe do que tu foges.

Não fujas mais. Talvez seja esse o dilema de hoje. Não fujas mais dessa louca que te habita. Deixa sair essa tua pequena miséria ao menos um pouco. Deixa ela evaporar nas gotas de suor, goza dessa endorfina psicotrópica que ela te impregna. Tá impregnada, precisa sair, precisa gastar, tem urgência. As gotas escorrem. Mas como guardastes isto nesse corpo tão pequeno, por tanto tempo? 

E não me chame des(vai)rada porque o imperativo de ida não me deixa ficar, e eu preciso ficar, pelo menos um pouco, com pelo menos um pé na terra. Não posso ir toda, seria sem volta, seria desastre.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Sobre o amor... que deveria não se chamar.


Sobre o amor, signo do impossível.

Signo diz de representação, e o amor, enquanto tal, surge para dar conta de um imaginário humano.

Acho que o amor, dentro dos moldes românticos, só cabe enquanto possibilidade aos seres de linguagem, pois o amor às vezes vem na falha dela, e por ela se esvai.

Como diria Paulinho Moska, “poderia simplesmente não se chamar, para não significar nada e dar sentido a tudo”. E é assim, a melhor forma de manter um amor é não invoca-lo, pois amor é palavra pesada.

Embaixo de cada pedra, de cada monumento, já houve um suspiro de amor. Reis e rainhas, heróis e heroínas, esses também já amaram. Já ouvi de mais de uma pessoa sobre a teoria de que “a gente nunca casa com o grande amor da nossa vida”. Não sei por que nunca respondi: e é isso que faz dele o grande amor de uma vida... seu fracasso, sua impossibilidade.

O amor tem essa face estética que a cultura nos impele a não abrir mão. Tem de ter algo de grandioso, fantástico, um abismo. Uma estética torta, disforme e incompleta, como aquilo que na natureza é belo pela falha. E não pense que a gente inventa o amor. Ele nos é transmitido no sangue das palavras, na tradição oral, quase como o hábito humano mais essencial, aquele que perpassa toda a linha da espécie.

Não pensem vocês que eu não acredito no amor, o que eu não acredito é em deus, e o único amor possível seria esse. Aquele devotado e investido em uma figura completa, onipresente e onipotente. Mas o que somos nós? Nós, os que estamos dentro do espaço amostral do amor humano? Somos o que fica do “apesar de”...

O “amor” possível é o que fica depois do “apesar de”. Pegue seu eleito, do passado ou do presente, faça uma lista e, ao final, não terá nem de perto aquilo do que nos falava Shakespeare ou Vinícius...

Existem os menos avassaladores, desinvestidos de todo e qualquer drama, aquele do cobertor no fim do dia, mas voltando a essência da coisa... se o amor é tentativa, o que vem do sucesso é amor?

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

by yourself

A gente nasce sozinho e vai se envolvendo com as pessoas, 
ou a gente nasces envolvido com as pessoas e vai ficando sozinho? 
Nietzsche dizia que "nunca é alto o preço a pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo". 
Privilégio? 
Propriocepção foi uma palavra que eu sempre gostei. Além de ser bonita de ouvir, "propriocepção", é o tipo de palavra que dispensa apresentações, e eu gosto de tudo que dispensa apresentações. 
Sempre fui a favor de tudo que fala por si mesmo. 
Sempre fui a favor de tudo que fala.
Olhando ao redor, o movimento das pessoas é sempre em direção ao outro.
O bebê em direção a mãe, 
a criança em direção a outra, 
a mulher em direção ao homem, 
o homem em direção às mulheres. 
Mas quem corre na direção de si mesmo?

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

De um amor que (diz)simetria


Prólogo:
Quando tudo tava calmo, eu copiei de uma canção de Belle e Sebastian: 
“Colour my life with the chaos of trouble, 
cause anything's better than posh isolation “. 
Não me dê o que eu lhe peço, pois não é isso que eu quero.

Capítulo único.
Já tem confusão o suficiente na minha vida”. Foi isso que pensei, e, assustadoramente, foi exatamente assim que o pensamento chegou à ponta dos meus dedos quando eu decidi pela última vez.
Eu acho que experimentei ser visceral. E fui. Esse amor me custou entranhas, me levou partes que eu não tinha. Amor é dar o que não se tem. Não há crescimento maior que mexer em ferida aberta.
Acabou por nada. Não por nada, mas pelo nada. Eu esperava algo, mas obtive nada. Não se sustenta um amor sozinha, não se deve pagar por erros alheios, não se muda alguém... Essas foram algumas das muitas lições que aprendi.
Uma vez, pensando na vida, como grande admiradora dela que sou, tive de aceitar que você só se torna bom nela depois que passa por ela. Não acho que o amor deva ser elevado a dignidade de vida, mas com ele também é assim. A habilidade de amar é cumulativa, mas requer sabedoria.
Amor não requer conhecimento, requer sabedoria. Requer sabedoria justamente para saber o que fazer com o conhecimento. Muito conhecimento sem sabedoria pode levar ao isolamento, e se existe o contrário do amor, é o isolamento.

Amar ao próximo te ensina a amar a si mesmo. Amor próprio e amor ao próximo são categorias dialéticas, e a vida, essa danada, é um pêndulo que oscila entre um e outro. O eu e o outro nessa dança dramática, nessa troca de pedaços. Um olho por uma unha, um fígado pelo baço, o amor te deixa com a anatomia torta, descompensada, mas não é saudável passar pela vida simétrico. Há beleza na dissimetria. 


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Dos apegos errados...

Começou por bem, continua por mal, vai terminar por nada.
Era loucura, depois desmesura, agora...
gastura.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O futuro do pretérito é um tempo que não nos cabe mais...


O futuro do pretérito é um tempo verbal que nos prende no tempo. 
E passado é passado pelos motivos certos, não te cabe mais. Não me cabe mais. Não nos cabe mais.
Essas são as articulações do mundo das ideias.
No mundo real: toda vez que te vejo lamento por só poder molhar os pés num rio em que as correntezas já me arrastaram.
Só quero correr pros teus braços, encostar minha cabeça no teu peito e esperar que me afagues os cabelos.
Mantemos distâncias.

P.S.: Tenho medo de nunca mais encontrar alguém que me passe a ilusão de segurança que tu me davas.
O (meu) mundo está confuso e caótico.
Perdi o eixo.
Quase dois anos.



segunda-feira, 16 de junho de 2014

sobre evaporar

Estou ao lado do aquário. 
E lhes digo que são esses os sons que ouço nesse momento: 
O borbulhar da água que faz o respira(dor), 
A moção dos ventos que faz o ventila(dor) 
E o barulho dos dedos pelo digita(dor). 
Seriam esses os sons das dores da madrugada?  
Os sons de que lhes falei estão todos em harmonia. 
Parece que o silêncio os rege, e assim faz música: som e silêncio.
As borbulhas precipitam depois do esperado. 
A vagarosa e vazia vida do aquário.
Sempre a mesma coisa: artificial.
Podia ser mar, mas é aquário.


quinta-feira, 29 de maio de 2014

E destes dias tão estranhos... Fica a poeira se escondendo pelos cantos

Hoje fui tomada por um exército de sentimentos. Uso exército porque dentro de mim provocaram uma verdadeira batalha. Nessas, sempre há um vencedor? Nas batalhas há baixas em ambos os lados, não vejo como possa haver vitória nelas. Em mim, baixas dos dois lados e no meio, no meio da minha divisão, no meio da minha dúvida, e da certeza de que ser é se perder um pouco a cada dia. E eu, menina dos jazz e blues me vi entregue à melancolia não-mais-punk do cara da capital federal. Eu quis ser ar-tista, quis poder cantar em notas os meus sentimentos, o meu afastamento do que quer que seja que eu venha me afastando. Hoje eu quis pegar o violão e achar as palavras certas, quis fazer do sentir música pra que eu nunca mais esquecesse, quis construir uma memória sonora e harmônica. Lapidar a harmonia do desequilíbrio. Quis falar do tempo perdido, da razão das coisas feitas pelo coração quase sem querer. Quem me dera ao menos uma vez ser a menina de "Ainda é cedo", ser alguém a ser lembrada, mesmo depois de um grande desencontro, quis que uma música pudesse concertar o (des)entendimento.  
Hoje era dia de análise, mas pelas contingências de uma capital caótica o encontro não se deu. E eu não tinha levado isso em consideração até pouco tempo. Hoje eu era minha própria repetição. Repetindo, repetindo, olhando no olho da maldita, "malfeita", "malvinda". O que é a vida, se não re-pe-ti-ção. E, pior que isso, o que é a vida se não uma sequência assustadora de deja-vùs, falhas na matrix de cada um de nós. Sim, porque cada um de nós precisou de uma pra seguir em frente. Acho que meu inconsciente foi condicionado a um relógio analítico, e o amor que emerge todo dia, na mesma hora e no mesmo lugar, hoje também veio, chegou atrasado e de uma fonte diferente. Hoje a fenda apareceu em slow motion, hoje veio em grãos, hoje eu fui rio. Rio de lágrimas, rio com correnteza, rio que deságua no precipício, e rio que tem duas margens, sempre impedidas de serem uma, sob pena de não ser mais rio e virar (a)mar. Hoje, por efeito retardado, o meu dia foi do amor, amor de transferência, mesmo sem a presença, amor do (im)possível, amor do (in)compreendido, amor do (ir)real... Amor da (diz)tância.


quarta-feira, 30 de abril de 2014

Condenação

A ti minha juventude, meu frescor, minha inexperiência. 
A ti meus sonhos de amor e loucura. 
A ti minha entrega, tudo que fui esteve em tuas mãos. 
Estive eu, nua, no calor do teu corpo. 
Lá estavas tu entre o suor das minhas pernas. 
A mim a tua sede, tua gana o teu ódio. 
Me deste o que podia dar. 
Te dei o que não podias (nem poderá) receber. 
À tua embarcação mil piratas invadiram e invadirão
Às tuas oiças já imunes ao canto de mil sereis, os bons sons não chegarão.
Nosso cambio foi de fluidos tão fluidos quanto o sentimento que tu pode suportar... 
És líquido, volátil, escorregadio, tua embarcação não possui âncora, 
arquitetura tão condizente com a leveza do teu ser. 
Eu sou o próprio porto, recebo as embarcações que por aqui quiserem ancorar, 
mas entre eu e você a interseção sublimou e sumiu no ar.
Depois de ti, aos que vierem, portas abertas.
Se tu voltares, com efeito de vingança do meu frágil coração,
condenada à prisão do primeiro amor, poros abertos.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Com que roupa eu vou?

Uma análise psicoanatomosociológica das necessidades de encaixe humanas.

Qualquer um que passe pelo viés da saúde vai se deparar com o paradigma do diagnóstico. É compreensível que para tentar "tratar" de algo, nós estejamos bem inteirados do que é o "algo", e não é isso que eu venho aqui questionar (por mais que também no corpo a moda do diagnóstico mereça questionamentos). 
O que tem me incomodado mais é que nessa onda de enquadre a variabilidade humana vem diminuindo consideravelmente, e isso faz de um mundo já não tão interessante mais desinteressante ainda. Primeiro eu pensei, depois de ouvir várias vezes palavras do tipo depressão, bipolar, desequilíbrio e mais uma porção de outras que seriam perfeitamente justificáveis considerando que estou mergulhada no contexto da saúde mental, na consistência daqueles autodiagnósticos. (vejam que eu já tô dando o abono da compulsão diagnóstica dos profissionais). Bem, o ponto é exatamente esse. As pessoas parecem não suportar mais serem apenas pessoas. O que me parece é que elas estão desesperadamente tentando caber em algo. Mas em quê? Padrões. Sejam eles os diagnósticos, sejam eles os padrões sociais ou de beleza. Quando estudei o desenvolvimento humano na faculdade vi que essa era uma característica comum aos adolescentes. 
Muitos falam da infantilização dos adulto, pois eu lhes falo da adolescentização deles.
Não quero fazer nenhum juízo final a esse respeito, mas isso tem me intrigado muito.
Primeiro eu percebi a enxurrada de diagnósticos. Estranhei, mas beleza... status quo? Depois eu vi as pessoas se enquadrando em cada vez mais categorias, de "personalidade", que sejam. Depois eu vi as pessoas se definindo quanto à sua aparência. Dai vi que se você não é segundo o padrão, espera-se que você realmente assuma a responsabilidade disso e viva em função de caber nele. Seja uma calça 38 ou em uma barriga negativa. Que número eu visto? Aquele que veste as minhas coxas fartas! Depois eu vi as pessoas se engessarem dentro de um gênero musical. E quiseram me engessar também (que absurdo o que fizeram com a arte)! Se você gosta de rock é roqueiro? Seus ouvidos estariam tapados ao jazz, ou ao soul, ou à música irlandesa, que seja? De que eu gosto? Eu gosto de música. E lhe digo, quanto mais experimental e misturada ela me parecer, melhor! E por ai vão as linhas, categorias, patamares, espécies... roupas!
São as roupas. São as formas que saem cada vez menores e com menos variabilidade. A criatividade, a plasticidade humana está se esgotando? Não era o mercado que deveria se adequar às nossas demandas e necessidades? Não era ele que devia vir até mim? Hoje o que temos são pessoas fechando os ouvidos, cerrando os olhos, amarrando os braços e as pernas, cortando as barrigas barrigas, tudo isso pra entrarem em uma roupa que não lhes pertence.



Na foto um programa de TV apresentado por ArLINDO  e IsaBELLA, onde alguém que te acha brega os chama para que eles entrem na sua casa e rasguem suas roupas favoritas. 
P.S.: Você deixa e se sente feliz com isso.

domingo, 6 de abril de 2014

Das tarefas solitárias...

Ultimamente tudo o que se esforça em parecer tem me irritado.
Talvez porque ultimamente o meu movimento tem sido o de ser e isso tem me custado.
Me parece que parecer é uma covardia diante do ser.
Parecer é mais fácil e vai no sentido da corrente.
Ser é tarefa solitária e te exige inclusive que o faça por si mesmo.
Inclusive a solidão é algo que só se aprende por si mesmo.
A solidão talvez seja o que mais se parece com o ser.
Mas devemos considerar: o Ser não existe.
O ser é um plano fracassado sucessivamente.
Um desenho sem rascunho talhado na carne.
O ser passa pelas entranhas.
O parecer passa pelas vestes.
Um é roupa, outro é víscera.


sábado, 29 de março de 2014

Tão bom morrer e continuar vivendo...

Se há dois meses atrás alguém me dissesse algo do tipo "mas pelo menos você viveu", eu fuzilaria com o olhar. Porque ninguém sabe da dor do outro. Nem mesmo o outro sabe a real dimensão da dor que sente. Ele perde toda e qualquer noção quando esta passa a ser física. É uma dor no peito que se espalha até as pernas, e te impede de dar o próximo passo.
Quando eu percebi que tudo acabara da primeira vez não doeu tanto, talvez porque era só o começo do fim. O fim, como tudo na vida, tem começo, meio e, depois do meio acaba, então temos o fim. O começo é a "estreia" da ideia: o mundo pode acabar. O meio é toda a tragédia do mundo acabando, e o fim é o mundo novo.
Há uma sutil intercessão entre o fim do fim e o começo do começo que só é perceptível a quem se entregou desde o começo do fim. Só para estes ela faz sentido, porque é quando você consegue decantar os sentimentos ruins em relação ao que foi vivido (isso inclui todos os lamentos), e finalmente tem água limpa novamente. Água adicionada de sais, sais do suor das noites quentes, das lágrimas que foram derramadas, sais vitais que agora você poderá usar na nutrição do próximo amor.
Do antigo amor você leva tudo o que aprendeu, mas com a ressalva de que o próximo é com outra pessoa. No final, nós somos boa parte feitos de todas as pessoas que passam por nós.
E, sim, hoje eu trago lembranças e um suspiro que diz calado:
"continuar vivendo... aliviado, o próximo amor vai ser mais fácil".



domingo, 16 de março de 2014

Da arte do abandono...

Uma vez alguém me deixou alegando ser um precipício. Eu respondi que é diante deles que descobrimos se a vida vale a pena ou não. Depois de um tempo eu consegui entender e aceitar a iniciativa. Até, de certa forma, concordar. Nós dois éramos uma escuridão, e com apego a ela. Odeio admitir, mas uma relação precisa de uma quantidade mínima de luz e equilíbrio. Juntos sentaríamos à beira daquele abismo e talvez não pulássemos porque tínhamos um ao outro, mas nunca mais sairíamos de lá. Há um certo gozo em desafiar a vida, e em se desafiar. Ali ficaríamos o resto dos dias desafiando um ao outro, em uma luta desigual, que eu provavelmente perderia, pelas desvantagens óbvias que tinha.
A vida muda a cada novo impacto, e a função dela é produzir impactos. Os impactos são subjetivos, bem verdade. Pode ser um acidente de carro, pode ser uma frase (dita ou calada). 
Uma segunda pessoa me deixou sem me deixar e ai, enfim, pude conhecer a dádiva do abandono.
O abandono é libertador, e precisa-se de muita dádiva para concebê-lo.
O abandono é altruísta, porque aqueles que não conseguem, ou não concebem, abandonar mantém um laço que pode vir a sufocar.
O não-abandono é uma forma de escravidão.
Diante dos dois, admito o erro de julgamento.De que precisa-se amar muito pouco para continuar, e amar muito para deixar ir.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

De como o fogo fez não mais queimarmos... Sobre máquinas e sentimentos.


Machine. Eu acho "machine" mais sonoro que máquina, acho o fonema /x/ mais agradável que o /k/, mas esse não é o nosso ponto aqui. Nosso ponto aqui são as máquinas e não os fonemas. Os sentimentos também são um ponto, e a falta deles, enfim, vocês já devem ter percebido que eu não sou a melhor pessoa do mundo em delinear o rumo do que eu escrevo antes do fim. Nós, "humanos", criamos a máquina. Fruto muito de nossa preguiça, é bem verdade. Na falta de coragem para fazermos algo, utilizamos do fogo de Prometeu (em resumo, a inteligência) para criarmos dispositivos que fizessem por nós o que deve ser feito. Isso deve ter começado com o fogo, dai foi pra roda, e hoje a gente tem altos sistemas de computadores que fazem coisas extraordinárias. Em inúmeras ficções científicas nós vemos as máquinas criando uma espécie de "autonomia" que beiras os moldes do terror. As máquinas se rebelarão e tomarão o poder, escravizando os pobres humanos, que não sabiam o que estavam fazendo ao conceder à elas tanta inteligência. Sabe qual a boa dessas ficções? 1- elas não saem do nada, ex-nihilo, elas saem de algum tipo de fantasia que habita o imaginário humano, e eu diria vários deles, porque não temos apenas um desses filmes, temos vários. 2- Se nós criamos as máquinas para fazer aquilo que tem de ser feito, mas o homem não teve coragem, ok, já podem criar uma máquina que sinta. Porque, pelo menos em tese, está dentro das atribuições humanas dor, prazer (com ou sem dor), paixão, entrega, medo, dor, vazio, confusão, alegria, dúvida, pânico, sabe... essas coisas da classe dos sentimentos. E o que fazemos hoje? Mais uma vez criamos uma forma de evitar o que nos desagrada, o vazio é tamponado das maneiras mais artificiais possíveis, a dor é calada com o arsenal da indústria farmacêutica, o medo foi taxado de fraqueza (que é outra coisa da classe humana repudiada) e ascendeu ao status de vergonha, o prazer virou moeda de troca e perdeu valor, a alegria eu tenho minhas dúvidas quanto à sua qualidade diante da quantidade que nos é vendida, perdemos a espontaneidade! Gente, o que há de mais humano que a espontaneidade? E por ai vamos... nos esquivando daquilo que nos conferia o status de humanos. Somos vazios, rasos e artificiais, características de máquinas?

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Sobre perdão, olhos e retalhos, mas tudo falando de amor...

Uma vez me perguntaram se o perdão existe. Guarde isto.
Outra vez eu ouvi "Olhos nos olhos" do Chico e me perguntei se aquele eu lírico havia superado o amor que o abandonara.
Ai uma vez eu amei, e tive matéria prima de sobra pra fomentar meus pensamentos...
Quando questionada sobre  perdão, eu disse não acreditar nele. Eu disse que o perdão só servia pra quem quer ser perdoado, que no lado de quem foi a parte "lesionada" da história, só podia haver a superação. Então as coisas ficariam "bem" quando quem tivesse de perdoar superasse. A não ser que seja um desses seres humanos evoluídos (que eu não sou) e perdoe mesmo sem ter superado, em cima de argumento como "todo mundo erra", "amores serão sempre amáveis" ou quaisquer outros.
Ai me veio a oportunidade de saber que eu sou.
Na verdade eu sai da tal oportunidade ainda mais confusa que antes.
Porque? A pior cisa que alguém que vacila com você pode fazer é te levar a pensar racionalmente.
Eu não acho que "esfriar a cabeça" seja uma boa estratégia, porque junto da cabeça esfria o coração, e era só o calor dele que podia te salvar.
"Quando você me deixou meu bem, disse pra ser feliz, encontrar alguém... Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci, mas depois, como era de costume, obedeci..."
Não, não era dessa cabeça fria que eu estava falando.
Eis aqui a grande entrelaçada da história: Quantas vezes nós seguimos em frente, e quantas vezes nós vamos para frente? Quantos amores não nasceram em cima da mágoa de um falso perdão? Quantos novos sujeitos não pagaram a conta de um referencial ?
Será que nosso coração é que nem uma caixa de retalhos que vai acumulando restos de amores até virar uma colcha onde poderemos finalmente descansar, ou cada amor deita sob uma nova estampa?




terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O que eu vou fazer com a tal sinceridade?

Se digo, me complico
Se não digo, me implico
Se eu guardo, me corrói
Se despejo, te destrói
O que o mundo já não sabe
é que não cabe a tal sinceridade
E que é cada vez mais (in)decente

O silencio dos inocentes.  

domingo, 12 de janeiro de 2014

"De dentro de mim não saio nem para pescar..."

De dentro de mim não saio nem para pescar, não por ser seguro, pelo contrário. Dentro de mim pode ser o lugar mais perigoso do mundo inteiro. Eu cheguei a pensar que ficar aqui dentro fosse covardia, logo eu que odeio todo tipo dela, e não fazia sentido. Eu tentei sair, tentei desconhecer a interdisciplinaridade dos meus pensamentos, ignorá-los, mas pensamentos são mosca numa tarde quente do sertão. Estão lá, não te deixam, incomodam, perturbam, (in)quietam. Então eu tive que pensar sobre isso. E pensei, esta mosca me venceu.
Dentro de mim aparece as vezes um ser humano estranho, um outro de mim, aparece um outro pela manhã, aparece um outro outro pela tarde, mas eu sempre volto ao controle durante a noite. A noite sou eu. Eu sou de noite. Há partes de mim ao amanhecer, um eu mais distraído, a beira de sair de mim... A tarde quem está aqui é uma versão mais cansada de quem começou o dia, mas esperançosa por saber que a noite chega. E com a noite eu chego também. Não que não goste de sol, mas a fotografia da noite é mais melancólica, e assim sou eu. De dia eu sorrio, muitas vezes, até sozinha. Não que eu não gostasse de ter com quem dividir a dádiva do sorriso, mas o meu sorriso é tão bonito. É um egoísmo meio narcísico, reconheço, mas como algo perto do melhor de mim, preservo. Preservo meu melhor sorriso para as melhores pessoas. As pessoas que me empolgam, que me cuidam, e que me falam. Ah como gosto das pessoas que me falam. Fui agraciada com o dom da escuta, mas condenada pela maldição da audição. Às vezes acho que as pessoas muito falam e pouco dizem, e sou sedenta de dizeres. Se o dizer fosse meu alimento, eu estaria prestes a morrer de inanição, porque são tantas meio-ditos, mal-ditos, des-ditos, onde estão os dizeres? Onde foi parar a beleza e a poesia das palavras?
E foi pensando nisso, depois de ser atormentada pela mosca, que cheguei a conclusão sobre o meu estar dentro. Não é covardia, é coragem. É coragem porque cada palavra que sai da minha boca pela colocação peculiar da língua entre os dentes, coroada com a vibração de minhas cordas vocais ocasionada pela passagem do ar, cada uma delas é investida de mim.
 "Mim", meu poder mais valioso. O "mim" de dentro sempre prevalece sobre o "mim" de fora. "Mim conjuga verbo, constrói oração, mim sou eu! E pra "mim" ser eu, "mim" tem de saber o que se é. E isso é o impossível interminável. O "mim" ser eu, cada vez mais familiarizado do outro é o que poderia se chamar de horizonte. A cada cinco passos que dou eu sua direção, ele se afasta de mim dez. E não é difícil entender que há ma grande possibilidade de eu nunca alcançá-lo, mas meu movimento está no continuar tentando...





quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Sobre Matrix, mal-estar, horizontes e pílulas...


Bem, quem me conhece melhor sabe da minha teoria sobre a Matrix. Quem me conhece um pouco sabe que eu faço psicologia, mas que eu gosto mesmo é de psicanálise. Quem me tem com "amigo" no facebook sabe que eu não sou lá a pessoa mais feliz do mundo, quem me conhece um pouco melhor sabe que eu não tô muito preocupada com isso. Quem sabe um pouco de psicanálise, ou qualquer coisa de Freud, pode vir a conhecer o que chamou-se de sublimação. Quem sabe superficialmente sobre isso entende que uma energia que seria sexual consegue ser "refinada" para algo mais "socialmente" aceito, em sua forma mais estética, em arte. Desse embrolho puxamos o fio e vemos que  sofrimento também pode ser transformado em arte, esse sentimento pode ser aproveitado e (grifo meu) é dele que nascem as obras mais bonitas e as obras mais bonitas correm  risco de entrarem em extinção, porque sofrimento é tapado com cimento fresco, e agente só fica cm  cheiro do ralo. O que isso tem a ver com Matrix? Bem, nada, e ao mesmo tempo tudo. Na época de Freud não existia ainda a semente de toda essa tecnologia de hoje, então ele não tinha a matéria prima pra trabalhar em cima, mas em " mal-estar na civilização" (livro que, para mim, deveria ser a bíblia do mundo moderno), ele já diz de várias formas o que encontramos no que eu gosto de chamar de fábula da modernidade (a matrix). Freud fala, dentre outras coisas, sobre como e porque o homem busca a felicidade, e por quais motivos ele não a alcança. Enfim, o livro é muito bom, todos deviam lê-lo. É claro que se todos entenderem muita gente que hoje se dá bem vai passar a se dar mal, mas enfim... Não sou eu quem vai resolver essa questão. De alguma forma na minha cabeça matrix e mal-estar na civilização estão bem interligadas, numa espécie de retroalimentação.Bem, acho que posso começar a conexão pela pílula vermelha. No primeiro filme de matrix o Morpheu oferece a Neo a opção de escolher entre a pílula azul e a pílula vermelha. A pílula azul faria com que ele esquecesse sobre seu breve contato com a matrix e continuasse vivendo sua vida de ilusão e projeção, enquanto a pílula vermelha lhe faria ver a VERDADE. Prestem bem atenção, a VERDADE, ele não oferece liberdade, nem felicidade, ele oferece verdade. Acho que hoje, desde que nascemos, somos entupidos de pílulas azuis, de forma que criam-se mecanismos por trás de mecanismos para que nós, humanos, ridículo, limitados,  que só usamos dez por cento de nossa cabeça animal, continuemos cegos e indiferentes ao mundo que nos cerca. Um mundo onde socialmente os valores estão absurdamente invertidos, onde você vale o que tem, onde uma criança na favela morre de bala perdida a cada vez que algum figurão pronuncia os dizeres: "Você sabe com quem está falando?", e o pobre do subordinado que ouve o dito se desespera com a possibilidade de que aquilo lhe faça perder algo. É um mundo onde as mulheres queimaram os sutiãs. Como assim? A mulher teve de perder essência pra ganhar poder? Feminismo, machismo, populismo, diaboaquatrismo... As pessoas não conseguem enxergar os fatos, os direitos tem que ser conquistados todos novamente a cada vez que precisamos deles. É tanta coisa torta, que acho que não existe mais uma perspectiva de horizonte, nada é reto, e para esse homem onipotente nada é impossível. É o homem ilimitado, que estende sua perspectiva de vida, trocando qualidade por quantidade, que cria o avião e depois o bate-papo pela internet. Sem o avião, quem deveria estar perto não estaria longe. É sempre assim, criam-se necessidades, e as soluções estão cada vez mais obsoletas. E o humano no meio disso tudo? As relações humanas tornaram-se um campo minado. Percepção e altivez são OS adjetivos que mais se mostram úteis em qualquer tipo de relacionamento. Você não pode ser sincero, pois ser sincero é produzir provas contra si mesmo, e no direito se diz que isso não deve ser feito. Você não pode demonstrar seus sentimentos, apenas pequenas doses homeopáticas a fim de que se cause dependência, é isso, a pessoa que se ama tem de ser dependente porque você a quer para si. O amor é risco, a entrega é risco, a verdade é risco e todos temos de usar neurônios para aprendermos as regras de um jogo que mata toda e qualquer espontaneidade, naturalidade, pureza. Nada mais é puro. A pílula vermelha, lembra? Ah, mas como você poderia lembrar se te enfiaram goela abaixo a azul, né?