quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Sobre Matrix, mal-estar, horizontes e pílulas...


Bem, quem me conhece melhor sabe da minha teoria sobre a Matrix. Quem me conhece um pouco sabe que eu faço psicologia, mas que eu gosto mesmo é de psicanálise. Quem me tem com "amigo" no facebook sabe que eu não sou lá a pessoa mais feliz do mundo, quem me conhece um pouco melhor sabe que eu não tô muito preocupada com isso. Quem sabe um pouco de psicanálise, ou qualquer coisa de Freud, pode vir a conhecer o que chamou-se de sublimação. Quem sabe superficialmente sobre isso entende que uma energia que seria sexual consegue ser "refinada" para algo mais "socialmente" aceito, em sua forma mais estética, em arte. Desse embrolho puxamos o fio e vemos que  sofrimento também pode ser transformado em arte, esse sentimento pode ser aproveitado e (grifo meu) é dele que nascem as obras mais bonitas e as obras mais bonitas correm  risco de entrarem em extinção, porque sofrimento é tapado com cimento fresco, e agente só fica cm  cheiro do ralo. O que isso tem a ver com Matrix? Bem, nada, e ao mesmo tempo tudo. Na época de Freud não existia ainda a semente de toda essa tecnologia de hoje, então ele não tinha a matéria prima pra trabalhar em cima, mas em " mal-estar na civilização" (livro que, para mim, deveria ser a bíblia do mundo moderno), ele já diz de várias formas o que encontramos no que eu gosto de chamar de fábula da modernidade (a matrix). Freud fala, dentre outras coisas, sobre como e porque o homem busca a felicidade, e por quais motivos ele não a alcança. Enfim, o livro é muito bom, todos deviam lê-lo. É claro que se todos entenderem muita gente que hoje se dá bem vai passar a se dar mal, mas enfim... Não sou eu quem vai resolver essa questão. De alguma forma na minha cabeça matrix e mal-estar na civilização estão bem interligadas, numa espécie de retroalimentação.Bem, acho que posso começar a conexão pela pílula vermelha. No primeiro filme de matrix o Morpheu oferece a Neo a opção de escolher entre a pílula azul e a pílula vermelha. A pílula azul faria com que ele esquecesse sobre seu breve contato com a matrix e continuasse vivendo sua vida de ilusão e projeção, enquanto a pílula vermelha lhe faria ver a VERDADE. Prestem bem atenção, a VERDADE, ele não oferece liberdade, nem felicidade, ele oferece verdade. Acho que hoje, desde que nascemos, somos entupidos de pílulas azuis, de forma que criam-se mecanismos por trás de mecanismos para que nós, humanos, ridículo, limitados,  que só usamos dez por cento de nossa cabeça animal, continuemos cegos e indiferentes ao mundo que nos cerca. Um mundo onde socialmente os valores estão absurdamente invertidos, onde você vale o que tem, onde uma criança na favela morre de bala perdida a cada vez que algum figurão pronuncia os dizeres: "Você sabe com quem está falando?", e o pobre do subordinado que ouve o dito se desespera com a possibilidade de que aquilo lhe faça perder algo. É um mundo onde as mulheres queimaram os sutiãs. Como assim? A mulher teve de perder essência pra ganhar poder? Feminismo, machismo, populismo, diaboaquatrismo... As pessoas não conseguem enxergar os fatos, os direitos tem que ser conquistados todos novamente a cada vez que precisamos deles. É tanta coisa torta, que acho que não existe mais uma perspectiva de horizonte, nada é reto, e para esse homem onipotente nada é impossível. É o homem ilimitado, que estende sua perspectiva de vida, trocando qualidade por quantidade, que cria o avião e depois o bate-papo pela internet. Sem o avião, quem deveria estar perto não estaria longe. É sempre assim, criam-se necessidades, e as soluções estão cada vez mais obsoletas. E o humano no meio disso tudo? As relações humanas tornaram-se um campo minado. Percepção e altivez são OS adjetivos que mais se mostram úteis em qualquer tipo de relacionamento. Você não pode ser sincero, pois ser sincero é produzir provas contra si mesmo, e no direito se diz que isso não deve ser feito. Você não pode demonstrar seus sentimentos, apenas pequenas doses homeopáticas a fim de que se cause dependência, é isso, a pessoa que se ama tem de ser dependente porque você a quer para si. O amor é risco, a entrega é risco, a verdade é risco e todos temos de usar neurônios para aprendermos as regras de um jogo que mata toda e qualquer espontaneidade, naturalidade, pureza. Nada mais é puro. A pílula vermelha, lembra? Ah, mas como você poderia lembrar se te enfiaram goela abaixo a azul, né?

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