domingo, 12 de janeiro de 2014

"De dentro de mim não saio nem para pescar..."

De dentro de mim não saio nem para pescar, não por ser seguro, pelo contrário. Dentro de mim pode ser o lugar mais perigoso do mundo inteiro. Eu cheguei a pensar que ficar aqui dentro fosse covardia, logo eu que odeio todo tipo dela, e não fazia sentido. Eu tentei sair, tentei desconhecer a interdisciplinaridade dos meus pensamentos, ignorá-los, mas pensamentos são mosca numa tarde quente do sertão. Estão lá, não te deixam, incomodam, perturbam, (in)quietam. Então eu tive que pensar sobre isso. E pensei, esta mosca me venceu.
Dentro de mim aparece as vezes um ser humano estranho, um outro de mim, aparece um outro pela manhã, aparece um outro outro pela tarde, mas eu sempre volto ao controle durante a noite. A noite sou eu. Eu sou de noite. Há partes de mim ao amanhecer, um eu mais distraído, a beira de sair de mim... A tarde quem está aqui é uma versão mais cansada de quem começou o dia, mas esperançosa por saber que a noite chega. E com a noite eu chego também. Não que não goste de sol, mas a fotografia da noite é mais melancólica, e assim sou eu. De dia eu sorrio, muitas vezes, até sozinha. Não que eu não gostasse de ter com quem dividir a dádiva do sorriso, mas o meu sorriso é tão bonito. É um egoísmo meio narcísico, reconheço, mas como algo perto do melhor de mim, preservo. Preservo meu melhor sorriso para as melhores pessoas. As pessoas que me empolgam, que me cuidam, e que me falam. Ah como gosto das pessoas que me falam. Fui agraciada com o dom da escuta, mas condenada pela maldição da audição. Às vezes acho que as pessoas muito falam e pouco dizem, e sou sedenta de dizeres. Se o dizer fosse meu alimento, eu estaria prestes a morrer de inanição, porque são tantas meio-ditos, mal-ditos, des-ditos, onde estão os dizeres? Onde foi parar a beleza e a poesia das palavras?
E foi pensando nisso, depois de ser atormentada pela mosca, que cheguei a conclusão sobre o meu estar dentro. Não é covardia, é coragem. É coragem porque cada palavra que sai da minha boca pela colocação peculiar da língua entre os dentes, coroada com a vibração de minhas cordas vocais ocasionada pela passagem do ar, cada uma delas é investida de mim.
 "Mim", meu poder mais valioso. O "mim" de dentro sempre prevalece sobre o "mim" de fora. "Mim conjuga verbo, constrói oração, mim sou eu! E pra "mim" ser eu, "mim" tem de saber o que se é. E isso é o impossível interminável. O "mim" ser eu, cada vez mais familiarizado do outro é o que poderia se chamar de horizonte. A cada cinco passos que dou eu sua direção, ele se afasta de mim dez. E não é difícil entender que há ma grande possibilidade de eu nunca alcançá-lo, mas meu movimento está no continuar tentando...





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