domingo, 28 de agosto de 2016

Sobre um ar (de) rar(o)efeito...

Ganhei um livro. Eu não sou muito de ganhar coisas. Uma vez me disseram que era muito difícil pensar em algo pra me dar. Acho que os melhores presentes são por pura lembrança. Algo que remete a alguém. Ás vezes compro coisas porque lembrei de pessoas. Nem sempre as presenteio. Às vezes a lembrança fica lá guardada esperando uma oportunidade, e às vezes, confesso, não entrego. Fico com a lembrança pra mim. Vai ser algo de alguém que tenho. Também faço isso com playlist. Tenho uma no youtube chamada "Portugal 5º" que nunca compartilhei com o destinatário. Hoje não seria mais tão legal porque a pessoa não tá mais em Portugal, e também não sei quantos graus faz em Lisboa agora. Mas tenho saudades de Lisboa. Devo um cartão postal a um garçom que me deu uma garrafa de vinho branco. Sempre que vejo postais lembro disso.Também tenho saudades do dono de direito da playlist, mas hoje só o que nos separa são poucos quilômetros. Alguns quilômetros e uma imensidão de desconcerto, que não tem unidade de medida, mas ainda é a imensidão que me faz escrever de vez em quando.
No livro que ganhei de uma analista amiga minha não dizia que "desse jeito eu não vou ser feliz direito" (não até onde eu li), mas diz porque eu escrevo. Um apanhado de textos jornalísticos de Marguerite Duras, onde em um deles, que fala sobre um editor literário, ela diz:
                                                       
 "É que o ato de escrever corresponde a uma necessidade trágica e                                                           feroz em todos os escritores, (...). Resulta sempre de um estado de                                                         solidão, sobretudo na província, em que os autores escrevem para                                                           se libertar de uma asfixia"

Nessa imensidão o ar costumava ser bem rarefeito. Hoje ele não é mais tanto. Hoje eu consigo respirar melhor, o cérebro oxigena e eu já consigo organizar o pensamento o tanto quanto isso é possível. E por conseguir respirar, hoje eu vejo que eu era a-pegada. Mais apegada àquela imensidão do que ao de quê ela me separava. Aquela imensidão era minha, e o ar sempre esteve lá. E eu escrevia, mas eu escrevia por familiaridade, pela forma da palavra. Era como se antes eu desenhasse as palavras que me eram familiares, como uma criança antes de saber ler, e hoje elas façam sentido, hoje eu as possa ler, e possa me desfazer daquelas que não cabem mais. 
Claro que não é tão fácil, além da imensidão eu também era apegada à forma daquelas palavras, elas me davam alguma substância no meio daquele nada. Hoje eu consigo deixá-las ir mesmo ainda achando o desenho bonito. Só não me servem mais como antes.
Talvez o prenúncio de que exista mais um infinito de palavras que eu posso deixar vir, ou talvez porque eu simplesmente não precise mais tanto delas. Mas não de todas. Portugal ainda é uma palavra de desenho bonito e sempre vai me fazer lembrar de vinho branco.

domingo, 29 de novembro de 2015

Ninguém me disse!


Dizem por aí que nós somos falados pelos outros antes de sermos nós mesmo. 

Há gerações atrás criaram expectativas ao seu respeito... 
Aí tem uma época que a gente acha que cresceu e que tem que se libertar de tudo isso que os outro vestiram na gente, e isso parece um ato quase que revolucionário. Há certa beleza em descobrir aquilo que você edificou por si mesmo, mesmo tendo ressalvas quanto a real possibilidade de uma produção 100% independente, não contaminada de outros, mas é uma fantasia importante de ser cultivada. 
É engrandecedor, te dá perspectiva, é daquelas coisas importantes para o bom desenrolar da caminhada... Acho que todo mundo já experimentou disso. Uns mais cedo, outros mais tarde, mas algo experimentável ao homem enquanto personagem de alguma história. O que me tem vindo muito à cabeça ultimamente é uma indagação que eu fiz diante de uma constatação quase que epifânica dessas que a vida apresenta pra gente 3 meses depois do que um dia a gente julgou ser a hora certa: "espera aí, ninguém nunca me disse isso". 
A partir daí eu comecei a pensar em um "Compêndio das coisas que não me disseram", porque na cabeça eu tenho uma sequência muito clara de cenas que voltam em determinados momentos... Aquela coisa que alguém citou por alto, ou até mesmo te advertiu, que na hora você deixou passar, porque faz parte de ser humano deixar passar certas coisas, mas que alguma coisa dentro de você não deixou passar completamente. Algo ficou guardado, pra voltar tarde demais, ou na hora que a vida julgou ser a hora certa, por mais que você discorde. 
Enfim, o fato é que com o tempo, a vida vai mudando o roteiro e te obriga a cada dia mais ser melhor no quesito "improvisação". Algumas batatas em chamas cairão nas suas mãos, (traz)vestidas de amor, carreira, escolhas, e naquele pequeno delay da matrix de você procurar as câmeras na esperança de ser uma pegadinha, na esperança de ser um lapso do diretor, na esperança de que nos próximos três segundo alguém apareça e faça uma ressalva que te coloque de volta dentro do roteiro, dentro do mar de palavras já escolhidas, é nesses segundos de desespero que você cresce. 
É na sequência, e pela repetição desses segundos que você começa a entender do que se trata, começa a aceitar que as palavras vão faltar, que o roteiro vai mudar e que o plano vai falhar... 
Eu podia colocar aqui isso dentro de um daqueles texto super virais de títulos que envolvem as necessárias mudanças dos planos de vida de qualquer um, mas acho que isso seria querer encaixar o não-roteiro dentro do roteiro, e eu acho que se trata muito mais de aceitar que a vida segue sem roteiro, sem consulta, porque em algum momento você vai na prateleira e percebe que o manual não está lá... Regule as velas pro vento que faz agora, sabendo que quando você terminar de fazê-lo, ele pode já ter mudado.
Ou escreva! Todos amparados no precedente Drumondiano do "Não se mate", olhe pra trás e poesie o "hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será" cotidiano de todos nós.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Lou(cura) ou ninguém quis ir comigo colar lambe-lambe.


Acho que tô ficando meio louca...

De repente, meu estado comedido se esvai, e deixa solta a outra. Não sei o que pode fazer, mas eu mesma se estivesse plena de minhas faculdades mentais, me afastaria.

Do nada uma vontade de teatro, um monólogo dramático, onde eu começaria falando de algo pífio do cenário, um armário, uma lâmpada, e de repente do pífio viria a epifania. Envolveria a plateia em um mistério, desentendido, uma confusão, loucura ou genialidade? Arte.

Arte é tudo o que eu queria fazer hoje. Hoje é meu dia arte e, veja só que triste, só tenho palavras. Mas que droga! Eu queria pintar, eu queria gritar, eu queria cantar. Queria provocar olhares estranhos: “mas o que essa louca tá dizendo? Pera ai, é louca? Não se deve dar crédito aos loucos, eles são só louco e nada mais. Melhor não prestar atenção, posso ficar louco também?”

Suor, sei que isso tem a ver com o corpo, só não sei onde. É um “farnizim”, um “frivião”, diabo é isso? Deus é que não é. Acho que tem mais a ver com o diabo mesmo. Aquelas risadas provocativas, sarcásticas, de quem te olha e sabe do que tu foges.

Não fujas mais. Talvez seja esse o dilema de hoje. Não fujas mais dessa louca que te habita. Deixa sair essa tua pequena miséria ao menos um pouco. Deixa ela evaporar nas gotas de suor, goza dessa endorfina psicotrópica que ela te impregna. Tá impregnada, precisa sair, precisa gastar, tem urgência. As gotas escorrem. Mas como guardastes isto nesse corpo tão pequeno, por tanto tempo? 

E não me chame des(vai)rada porque o imperativo de ida não me deixa ficar, e eu preciso ficar, pelo menos um pouco, com pelo menos um pé na terra. Não posso ir toda, seria sem volta, seria desastre.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Sobre o amor... que deveria não se chamar.


Sobre o amor, signo do impossível.

Signo diz de representação, e o amor, enquanto tal, surge para dar conta de um imaginário humano.

Acho que o amor, dentro dos moldes românticos, só cabe enquanto possibilidade aos seres de linguagem, pois o amor às vezes vem na falha dela, e por ela se esvai.

Como diria Paulinho Moska, “poderia simplesmente não se chamar, para não significar nada e dar sentido a tudo”. E é assim, a melhor forma de manter um amor é não invoca-lo, pois amor é palavra pesada.

Embaixo de cada pedra, de cada monumento, já houve um suspiro de amor. Reis e rainhas, heróis e heroínas, esses também já amaram. Já ouvi de mais de uma pessoa sobre a teoria de que “a gente nunca casa com o grande amor da nossa vida”. Não sei por que nunca respondi: e é isso que faz dele o grande amor de uma vida... seu fracasso, sua impossibilidade.

O amor tem essa face estética que a cultura nos impele a não abrir mão. Tem de ter algo de grandioso, fantástico, um abismo. Uma estética torta, disforme e incompleta, como aquilo que na natureza é belo pela falha. E não pense que a gente inventa o amor. Ele nos é transmitido no sangue das palavras, na tradição oral, quase como o hábito humano mais essencial, aquele que perpassa toda a linha da espécie.

Não pensem vocês que eu não acredito no amor, o que eu não acredito é em deus, e o único amor possível seria esse. Aquele devotado e investido em uma figura completa, onipresente e onipotente. Mas o que somos nós? Nós, os que estamos dentro do espaço amostral do amor humano? Somos o que fica do “apesar de”...

O “amor” possível é o que fica depois do “apesar de”. Pegue seu eleito, do passado ou do presente, faça uma lista e, ao final, não terá nem de perto aquilo do que nos falava Shakespeare ou Vinícius...

Existem os menos avassaladores, desinvestidos de todo e qualquer drama, aquele do cobertor no fim do dia, mas voltando a essência da coisa... se o amor é tentativa, o que vem do sucesso é amor?

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

by yourself

A gente nasce sozinho e vai se envolvendo com as pessoas, 
ou a gente nasces envolvido com as pessoas e vai ficando sozinho? 
Nietzsche dizia que "nunca é alto o preço a pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo". 
Privilégio? 
Propriocepção foi uma palavra que eu sempre gostei. Além de ser bonita de ouvir, "propriocepção", é o tipo de palavra que dispensa apresentações, e eu gosto de tudo que dispensa apresentações. 
Sempre fui a favor de tudo que fala por si mesmo. 
Sempre fui a favor de tudo que fala.
Olhando ao redor, o movimento das pessoas é sempre em direção ao outro.
O bebê em direção a mãe, 
a criança em direção a outra, 
a mulher em direção ao homem, 
o homem em direção às mulheres. 
Mas quem corre na direção de si mesmo?

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

De um amor que (diz)simetria


Prólogo:
Quando tudo tava calmo, eu copiei de uma canção de Belle e Sebastian: 
“Colour my life with the chaos of trouble, 
cause anything's better than posh isolation “. 
Não me dê o que eu lhe peço, pois não é isso que eu quero.

Capítulo único.
Já tem confusão o suficiente na minha vida”. Foi isso que pensei, e, assustadoramente, foi exatamente assim que o pensamento chegou à ponta dos meus dedos quando eu decidi pela última vez.
Eu acho que experimentei ser visceral. E fui. Esse amor me custou entranhas, me levou partes que eu não tinha. Amor é dar o que não se tem. Não há crescimento maior que mexer em ferida aberta.
Acabou por nada. Não por nada, mas pelo nada. Eu esperava algo, mas obtive nada. Não se sustenta um amor sozinha, não se deve pagar por erros alheios, não se muda alguém... Essas foram algumas das muitas lições que aprendi.
Uma vez, pensando na vida, como grande admiradora dela que sou, tive de aceitar que você só se torna bom nela depois que passa por ela. Não acho que o amor deva ser elevado a dignidade de vida, mas com ele também é assim. A habilidade de amar é cumulativa, mas requer sabedoria.
Amor não requer conhecimento, requer sabedoria. Requer sabedoria justamente para saber o que fazer com o conhecimento. Muito conhecimento sem sabedoria pode levar ao isolamento, e se existe o contrário do amor, é o isolamento.

Amar ao próximo te ensina a amar a si mesmo. Amor próprio e amor ao próximo são categorias dialéticas, e a vida, essa danada, é um pêndulo que oscila entre um e outro. O eu e o outro nessa dança dramática, nessa troca de pedaços. Um olho por uma unha, um fígado pelo baço, o amor te deixa com a anatomia torta, descompensada, mas não é saudável passar pela vida simétrico. Há beleza na dissimetria. 


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Dos apegos errados...

Começou por bem, continua por mal, vai terminar por nada.
Era loucura, depois desmesura, agora...
gastura.