sábado, 29 de março de 2014

Tão bom morrer e continuar vivendo...

Se há dois meses atrás alguém me dissesse algo do tipo "mas pelo menos você viveu", eu fuzilaria com o olhar. Porque ninguém sabe da dor do outro. Nem mesmo o outro sabe a real dimensão da dor que sente. Ele perde toda e qualquer noção quando esta passa a ser física. É uma dor no peito que se espalha até as pernas, e te impede de dar o próximo passo.
Quando eu percebi que tudo acabara da primeira vez não doeu tanto, talvez porque era só o começo do fim. O fim, como tudo na vida, tem começo, meio e, depois do meio acaba, então temos o fim. O começo é a "estreia" da ideia: o mundo pode acabar. O meio é toda a tragédia do mundo acabando, e o fim é o mundo novo.
Há uma sutil intercessão entre o fim do fim e o começo do começo que só é perceptível a quem se entregou desde o começo do fim. Só para estes ela faz sentido, porque é quando você consegue decantar os sentimentos ruins em relação ao que foi vivido (isso inclui todos os lamentos), e finalmente tem água limpa novamente. Água adicionada de sais, sais do suor das noites quentes, das lágrimas que foram derramadas, sais vitais que agora você poderá usar na nutrição do próximo amor.
Do antigo amor você leva tudo o que aprendeu, mas com a ressalva de que o próximo é com outra pessoa. No final, nós somos boa parte feitos de todas as pessoas que passam por nós.
E, sim, hoje eu trago lembranças e um suspiro que diz calado:
"continuar vivendo... aliviado, o próximo amor vai ser mais fácil".



domingo, 16 de março de 2014

Da arte do abandono...

Uma vez alguém me deixou alegando ser um precipício. Eu respondi que é diante deles que descobrimos se a vida vale a pena ou não. Depois de um tempo eu consegui entender e aceitar a iniciativa. Até, de certa forma, concordar. Nós dois éramos uma escuridão, e com apego a ela. Odeio admitir, mas uma relação precisa de uma quantidade mínima de luz e equilíbrio. Juntos sentaríamos à beira daquele abismo e talvez não pulássemos porque tínhamos um ao outro, mas nunca mais sairíamos de lá. Há um certo gozo em desafiar a vida, e em se desafiar. Ali ficaríamos o resto dos dias desafiando um ao outro, em uma luta desigual, que eu provavelmente perderia, pelas desvantagens óbvias que tinha.
A vida muda a cada novo impacto, e a função dela é produzir impactos. Os impactos são subjetivos, bem verdade. Pode ser um acidente de carro, pode ser uma frase (dita ou calada). 
Uma segunda pessoa me deixou sem me deixar e ai, enfim, pude conhecer a dádiva do abandono.
O abandono é libertador, e precisa-se de muita dádiva para concebê-lo.
O abandono é altruísta, porque aqueles que não conseguem, ou não concebem, abandonar mantém um laço que pode vir a sufocar.
O não-abandono é uma forma de escravidão.
Diante dos dois, admito o erro de julgamento.De que precisa-se amar muito pouco para continuar, e amar muito para deixar ir.