Gente, toda essa movimentação que está acontecendo agora tem um caráter bem peculiar: Não temos uma única causa de luta, temos várias. Os R$0,20 foram o estopim, mas estamos na rua lutando por inúmeras melhorias. Ontem, ao voltar pra casa, nós tivemos que apanhar um taxi. Eu fiquei por último no trajeto, e ai o taxista me perguntou: "Porque vocês estão fazendo isso?", com um tom de recriminação. Eu, percebendo que ele não estava muito contente com as manifestações, tentei explicar com exemplos práticos.
Eu disse que não existia um único motivo pra estarmos lá. Mas que o fato de estarmos no dia do jogo era porque queríamos incomodar.
Ai ele me interrompeu e disse: "INCOMODAR? Taí, gostei do jeito que você falou, porque é só isso que vocês estão fazendo. Porque que tinha que ser logo agora na copa?"
Ai, eu tentei responder: Moço, o senhor imagina o quanto tá sendo gasto dos cofres públicos com essa copa? Um dinheiro que tá fazendo muita falta pra população na educação, saúde, segurança... Quer um exemplo? Eu estudo na UECE. O senhor conhece alguém que estude lá? Meu senhor, lá as coisas estão entregues. Os colegiados estão totalmente desfalcados, falta muita coisa, e o governador não faz nem questão de fingir que tá se importando com a nossa situação. Por vezes ele nos deixa claro que não pretende fazer investimentos lá. Tem gente que não sabe quando vai poder se formar por causa da falta de professores, de recurso e tudo o que isso causa.
Ai, ele me surpreendeu com a seguinte resposta:
"Mas, me diga... estudar pra quê? Olha, eu não tenho mais que uma segunda série, só sei assinar meu nome e ler uma besteirinha e sou 'doutô'. Sou o 'doutô' taxista. Tenho meu apartamento, meu carro particular, meus filho. Olha, eu não troco a minha vida pela vida de nenhuma pessoa com ensino superior não. E meus filhos? Eu vou deixar eles estudarem se eles quiserem, pago o que for preciso, mas eu não faço questão não. Qualquer coisa eu boto um comerciozim ali pra eles e eles me pagam quando estivem lucrando. Estudar pra quê, moça?"
Ai, eu peguntei, mas moço, se eu não estudar eu vou fazer o quê da minha vida?
Ele respondeu: "Ai eu não sei, mas eu não faço questão de ter estudo, nem faço questão de que meus filhos tenham."
Eu fiquei muito tentada a usar alguns argumento que me vinham à cabeça, do tipo "meu pai não vai colocar um 'comerciozim' pra mim", ou "como seu filho pode ter uma vida melhor que a sua?", mas eu também pensei: Porque? Porque aquele senhor não estava incomodado. E anda, ele deveria estar? Porque naquela hora eu me peguei com vontade de convencê-lo do meu ponto de vista? Porque eu acho que estou certa e ele não?
Sair do mundo das ideias e passar ao ato já foi uma grandessíssimo passo para o povo brasileiro, mas acho que uma maior conscientização das mazelas as quais sofremos poderia trazer um maior número de adesão à causa. E deixaria a coisa mais concisa, sem o risco de termos manifestantes alienados, sem o risco de termos o próprio povo contra nós. Não estou aqui me apoiando sob o saber. Não estou dizendo que eu estava certa e o taxista errado, só estou dizendo que esse homem não teve as mesmas oportunidades que eu. E estamos caminhando pra um futuro que os filhos dele também não terão. Sou simpatizante desse movimento sem uma causa específica, porque isso agrega! Cada um vai às ruas com as suas queixas e lá encontra outros com as mesmas queixas e vê que juntos eles podem fazer algo à respeito. Ter uma única causa limita, restringe, e faz com que o levante perca força. Além do mais, não precisa ser nenhum sociólogo pra saber que por mais que os desdobramentos sejam diversos, a raiz é uma só!
Foto: Heideger Nascimento.

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