terça-feira, 25 de junho de 2013

É tipo quebra-cabeças de labirinto...

Uma coisa que eu já aprendi sobre a minha "dinâmica literária" é que eu não sou muito boa com títulos. Não sou boa com os títulos dessas coisas que eu escrevo aqui, não sou boa com os títulos das músicas que eu componho, muito menos com os títulos dos meus trabalhos acadêmicos. Isso é bem explicável quando penso que a droga do meu raciocínio não tem nada de linear. Agora, por exemplo, eu pensei em escrever um texto intitulado "Quando eu finjo que não sei", porque eu tava a fim de falar como é legal você omitir seu conhecimento em determinadas situações, porque isso meio que te dá um controle da situação às vezes da até pra manipular uns resultados. Não que eu faça isso, a parte séria do meu superego não permite, mas, às vezes, eu faço na minha cabeça. Eu meio que planejo os próximos passos, e, noooossa, como as pessoas se tornam previsíveis com um pouco de informação. "Ah, mas você é psicóloga", alguns devem tá pensando agora. E lhes digo: nada disso se aprende na faculdade. Aliás, uma das coisas que você menos aprende numa faculdade de psicologia é sobre psicologia (e isso que eu tô falando não tem nada de psicologia). Esse é o tipo de coisa que qualquer um que saiba calar e observar mais que qualquer outra coisa aprende. Eu não sei de onde veio essa minha veia meio intrusa na conversa alheia, mas eu simplesmente não consigo não prestar atenção se estiverem conversando perto de mim. Às vezes a conversa é uma merda (essas são as melhores), mas ainda assim eu fico prestando atenção. O meu maior gozo é pegar apenas fragmentos dos diálogos e ir construindo um raciocínio. É tipo fica olhando alguém montar um quebra-cabeças, saber qual peça ele deve colocar em que lugar, mas não poder opinar, simplesmente porque aquilo não te diz respeito. No começo eu deixava escapar, ai, do nada, me metia no meio da conversa, dando informação ou opinião, mas eu percebi (da pior maneira possível) que isso não é legal. O pior é que eu nunca uso isso pro mal. Ás vezes eu ficou ouvindo, quero poder ajudar, mas fico achando que vão me achar metida. Meu breve momento de liberdade é quando isso acontece com pessoas que eu conheço e tenho intimidade, por isso, não se assuste se eu me meter numa conversa que você achava que eu não tava nem ai... Essa é minha maneira preferida de conhecer as pessoas. Pegando as conversas por alto. Por favor, não me ache pentelha, eu não acho que o que eu faço é errado. Juro que se achasse já tinha parado. Mas é muito, muito, muito interessante. Ai voltando à parte da manipulação, você vem prestando atenção há tempos nas conversas de alguém, daí quando vai falar com ela, nas primeiras tentativas, já sabe que caminho seguir. Ah, outra coisa, eu sei exatamente quando você quer que eu ouça. Isso acaba com a fantasia toda da coisa, tá? É tipo fetiche, tem que ser do meu jeito, se não não funciona... Foi assim que eu me apaixonei da última vez. "Imagéticamente" o sujeito era exatamente tudo o que eu não gostava, por sorte (ou azar, pelo rumo das coisas) eu não o enquadrei na minha prateleira de repulsas, justamente porque alguma vez a conversa dele com alguém me chamou a atenção. Eu sei que eu não devia fazer esse tipo de enquadramento sem o conhecimento mais aprofundado da pessoa, mas, sim, esse é o tipo de coisa idiota que eu faço. Enfim, quanto mais eu prestava atenção nas conversas dele, mais eu tinha que fingir desinteresse e mais eu queria que aquelas conversas fossem comigo! Às vezes dava vontade de ser aquela criança chata do colégio que quer forçar a amizade e mostra todos os seus brinquedos legais, sabe? Eu tinha vontade de vomitar tudo o que eu sabia sobre o que ele tava conversando só pra ver se ele ia me achar interessante e querer ser meu amigo. Aos poucos eu dei um jeito de me inserir nas conversas, e dai eu meio que fui ficando viciada, ou como eu disse uma vez, condicionada, a ele. Aquela conversa era de longe a melhor que eu já tinha tido. Parecia que finalmente eu não precisava mais ser um terceiro elemento fantasmático de um diálogo, eu finalmente tinha alguém com quem tinha prazer de conversar, alguém que conseguia receber o que eu tinha pra dar, e que conseguia dar o que eu queria receber. Dai já dá pra imaginar onde isso ia dar... Cada vez mais eu queria espirrar o que eu sabia, minha opinião sobre as coisas, mas ai eu já não queria só conversa. E eu que julgava impossível, finalmente achei que tinha achado a minha outra pessoa. Eu queria mais, queria que meu mundo se restringisse a nós dois. Mas, não mais que de repente, eu não reconhecia mais aquele outro sujeito do diálogo. Ele se foi. Deu lugar a uma figura perfeitamente enquadrável naquela categoria que eu falei anteriormente. E o pior que eu sei que não foi um desaparecimento, foi uma foraclusão. Ele tá ali, mas não quer mais estar. A minha pessoa entrou em latência. Eu nem sei quanto tempo ela vai durar, mas já foi o suficiente pra eu reverter todo e qualquer investimento. Agora, tudo o que eu quero é vomitar coisas horríveis pra que ele sinta tanta raiva de mim quanto eu sinto dele. Tudo que eu quero é não mais querer nada que um dia ele possa vir a querer para que nem esse querer nós tenhamos em comum. O pior é que nem querer mais que ele volte eu quero. Meu querer agora é da ordem da ausência de átomos. Queria que ele simplesmente nunca tivesse existido. O que me seria bem mais cômodo, pois agora vai ficar aquela esperança chata e involuntária de achar um outro alguém com que eu possa voltar a ser um elemento de dois, e não de três e flutuante. Mas, enfim... Talvez seja hora de fingir que não sei pra mim mesma, talvez assim eu possa amortecer os próximos passos.

P.S.: Desculpa se pareceu ríspido, é que ultimamente eu sai dessa onda de fingir que não...

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Qual a profundidade da revolução?

Gente, toda essa movimentação que está acontecendo agora tem um caráter bem peculiar: Não temos uma única causa de luta, temos várias. Os R$0,20 foram o estopim, mas estamos na rua lutando por inúmeras melhorias. Ontem, ao voltar pra casa, nós tivemos que apanhar um taxi. Eu fiquei por último no trajeto, e ai o taxista me perguntou: "Porque vocês estão fazendo isso?", com um tom de recriminação. Eu, percebendo que ele não estava muito contente com as manifestações, tentei explicar com exemplos práticos.
Eu disse que não existia um único motivo pra estarmos lá. Mas que o fato de estarmos no dia do jogo era porque queríamos incomodar.
Ai ele me interrompeu e disse: "INCOMODAR? Taí, gostei do jeito que você falou, porque é só isso que vocês estão fazendo. Porque que tinha que ser logo agora na copa?"
Ai, eu tentei responder: Moço, o senhor imagina o quanto tá sendo gasto dos cofres públicos com essa copa? Um dinheiro que tá fazendo muita falta pra população na educação, saúde, segurança... Quer um exemplo? Eu estudo na UECE. O senhor conhece alguém que estude lá? Meu senhor, lá as coisas estão entregues. Os colegiados estão totalmente desfalcados, falta muita coisa, e o governador não faz nem questão de fingir que tá se importando com a nossa situação. Por vezes ele nos deixa claro que não pretende fazer investimentos lá. Tem gente que não sabe quando vai poder se formar por causa da falta de professores, de recurso e tudo o que isso causa.
Ai, ele me surpreendeu com a seguinte resposta:
"Mas, me diga... estudar pra quê? Olha, eu não tenho mais que uma segunda série, só sei assinar meu nome e ler uma besteirinha e sou 'doutô'. Sou o 'doutô' taxista. Tenho meu apartamento, meu carro particular, meus filho. Olha, eu não troco a minha vida pela vida de nenhuma pessoa com ensino superior não. E meus filhos? Eu vou deixar eles estudarem se eles quiserem, pago o que for preciso, mas eu não faço questão não. Qualquer coisa eu boto um comerciozim ali pra eles e eles me pagam quando estivem lucrando. Estudar pra quê, moça?"
Ai, eu peguntei, mas moço, se eu não estudar eu vou fazer o quê da minha vida?
Ele respondeu: "Ai eu não sei, mas eu não faço questão de ter estudo, nem faço questão de que meus filhos tenham."
Eu fiquei muito tentada a usar alguns argumento que me vinham à cabeça, do tipo "meu pai não vai colocar um 'comerciozim' pra mim", ou "como seu filho pode ter uma vida melhor que a sua?", mas eu também pensei: Porque? Porque aquele senhor não estava incomodado. E anda, ele deveria estar? Porque naquela hora eu me peguei com vontade de convencê-lo do meu ponto de vista? Porque eu acho que estou certa e ele não?
Sair do mundo das ideias e passar ao ato já foi uma grandessíssimo passo para o povo brasileiro, mas acho que uma maior conscientização das mazelas as quais sofremos poderia trazer um maior número de adesão à causa. E deixaria a coisa mais concisa, sem o risco de termos manifestantes alienados, sem o risco de termos o próprio povo contra nós. Não estou aqui me apoiando sob o saber. Não estou dizendo que eu estava certa e o taxista errado, só estou dizendo que esse homem não teve as mesmas oportunidades que eu. E estamos caminhando pra um futuro que os filhos dele também não terão. Sou simpatizante desse movimento sem uma causa específica, porque isso agrega! Cada um vai às ruas com as suas queixas e lá encontra outros com as mesmas queixas e vê que juntos eles podem fazer algo à respeito. Ter uma única causa limita, restringe, e faz com que o levante perca força. Além do mais, não precisa ser nenhum sociólogo pra saber que por mais que os desdobramentos sejam diversos, a raiz é uma só!
                                       
                                                            Foto: Heideger Nascimento.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

each other... e sobre o que não tem palavra pra ser dito.

"each other"... Fale isso em voz alta. É uma sonoridade muito legal, né? Não, eu não sou louca, vamos lá, fale em voz alta, rapidamente. "each other"!
They love "each other", they meet "each other".
O inglês tem umas expressões bonitas, "each other" é uma delas. Também gosto muito da palavra "miss". Do espanhol a expressão "pero no mucho" é minha preferida. Ela me da a sensação de medida das coisas... O português também tem muita coisa legal, saudade é uma palavra linda, exclusiva. Só com ela nós podemos expressar o que é saudade. Porque dizer "eu sinto sua falta" não é exatamente correspondente a "tenho saudades". Uma vez eu disse que saudade não era vontade, era só saudade, mas acho que saudade é "miss"+"wish". Você sente falta... mas sentir falta não quer dizer que você queira algo de volta. Mas saudades quer dizer isso sim, pois se você não quisesse de volta não seria saudade, seria apenas falta.
O que seria de mim se não fossem as palavras. Ficaria tudo ainda mais confuso? Às vezes eu não consigo explicar o que eu sinto/penso. Na psicanálise diria que o afeto não se ligou à ideia, ou que se trata de algo da ordem do real, mas em raissanálise eu diria que isso acontece porque você tá pensando do lugar errado. As palavras são poderosas demais pra não darem conta de algo. Talvez você seja alheio a isso por enquanto, mas um dia vai conseguir nomear. Existe alguma forma de expressar isso que se sente. Você só não chegou no lugar certo pra dar significado. Talvez só na Espanha eu possa ter a real medida das coisas, ou só nos EUA eu possa simplesmente sentir falta de alguém, sem ter essa vontade inquietante de conseguir sentir novamente... enfim. O que eu posso saber até agora é que aqui, no Brasil, eu sinto saudades. É o que eu consigo sentir. Sinto falta também, mas ai essa falta vem acompanhada do desejo. E o desejo vem acompanhado da angústia, que, por sua vez, vem porque eu não consigo nomear o que sinto. Daí voltamos à estaca zero. A questão é que no fundo eu sei que por mais que eu falasse todas as línguas dos homens, justamente por isso, eu nunca saciaria a minha sede seja lá do que ela for. E é assim, just like that, que a palavra instaura um furo em cada um de nós...