Não com essas palavras, bem mais esteticamente talhado, claro, mas Clarice nos dizia que nós viemos e iremos para um vazio, viemos do vazio do antes de nascer e iremos para o vazio da morte. O que nos resta é um "por enquanto".
É nesse por enquanto que vamos levando, né? É nesse por enquanto que vamos sofrendo, caindo, levantando de cabeça baixa, se atrevendo a olhar pra cima aos poucos, levando topada, olhando pra baixo, esbarrando, olhando pra cima, levando topada...
A questão agora é que você tá angustiado. Mastiga, rumina essa angústia. Tem epifanias, faz coisas por causa delas, mas, concretamente, o que muda?
Felizes daqueles que não pensam. Mais felizes aqueles que não falam.
Você vai buscando, acreditando, mas aos poucos percebendo que a felicidade é um pássaro esperto. Ele se deixa ver, ouvir, até se orgulha de ser contemplado. Com toda a sua pompa te deixa envolver, admirar-lhe as asas e a ignorância, chegar perto, chegar perto... e voa. Sem nenhuma consideração.
Essa é a "queda". Depois disso, você rumina e levanta. Levanta porque a maioria de nós sempre levanta. A maioria de nós sempre levanta porque nunca de fato caiu. A queda de verdade é quase uma redenção. A queda de verdade é a liberdade. Quando se cai de verdade você não é mais obrigado a levantar. A queda verdadeira te livra do masoquismo escroto de ter esperança. Esperança. Vou te dizer, esperança é, nessa conversa, a força da gravidade. A força que te leva ao chão.
Não me julguem.
Não o façam.
Depois "dissos", você percebe que as coisas simplesmente são. Que você saiu do nada e vai pra lugar algum. Que o que te resta é o por enquanto. E o por enquanto é o que te resta.
Uma vez eu criei uma metáfora... daquelas que vem...Me lembrei dela. Realmente, você cai e levanta, e olha pra si, e vê que na queda você ralou o joelho e as mãos. E aí chorou, e sangrou é claro. E ai vc passa um tempo prestando atenção pra não cair de novo, e precisa da ajuda de alguns que nunca te abandonam, nem te dão rasteiras. Ai você quase se recupera...cria casquinha na ferida... E às vezes quem te ajuda, tentando ajudar, claro, arranca um pedaço da casquinha. Dói de novo, vc fica puto e pára de aceitar ajuda. Aí uma hora a mágoa e a dor passam, a vergonha de ter caído passa, o sentimento de estupidez se transformar em coragem... E ai você pensa: " desta vez estou advertido, não vou fazer 'isso e aquilo' e não vou cair" Mas você cai de novo =( é patético, mas é o que tem por enquanto!
ResponderExcluiré o que tem por enquanto...
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