"O amor é uma espera e a dor a ruptura súbita e imprevisível dessa espera."
A dor de amar, J. D. Nasio
Dia sacal, mas ao lembrar do quanto tinha feito para ficar de férias, sem pestanejar, peguei a bolsa e sai de casa.
Cinema.Era essa minha decisão ao entrar no ônibus, por sorte, vazio. Sorte não era algo que me acompanhava ultimamente.Então, de imediato percebi o feito e fiquei satisfeita.
Não queria um cinema de quinta, queria o melhor cinema. Há muito se especulava sobre um shopping novo da cidade que eu ainda não fora. As cadeiras eram marcadas e tudo mais. Decisão toma, rumo a seguir.
A estrutura do shopping era fascinante. Nem se comparava ao shopping de bairro com o qual eu me contentava. As lojas eram bem atraentes, mas como a grana tava curta me detive a procurar a parte dos cinemas.
Descobri que era no terceiro andar e, então, fui em busca de um elevador.Apertei o botão para chamá-lo e quando a porta abriu entrei.Entrei de cabeça baixa, meio que encabulada por ser uma estranha naquele ambiente. Não que não tivesse condições de pertencê-los, mas nunca fizera o meu gênero. Nunca fui muito adepata aos exageros do capitalismo, e era extamente o que aquele ambiente gritava:consuuuuumo!
Depois de me acomodar resolvi examinar os outros que estavam no mesmo barco que eu e, logo que levanto a vista, ele.
Fui tomada por uma vertigem, mas disfarcei, pois se tem algo que eu faço bem é desfarçar. Estava sério, com cara de poucos amigos, falando sobre trabalho ao celular. Com aquela blusa branca, por mim muitas vezes amarrotada, aquela com três pranchas de surf no peito esquerdo. Uma calça jeans que de tão lavada tava quase branca e o tênis de sempre. Ainda aquele ar de "Don Juan deMarco", uma mistura de louco/infantil/homem/sedutor.
Quando fitei nele ele percebeu e me olhou.
Parou de falar com quem quer que seja ao telefone e sorriu. Eu exitei, mas sorri de volta, mas um sorriso amarelo com o queixo erguido, não o meu sorriso de olhinhos fechados.
Voltou ao telefone e fez sinal para que eu saísse no mesmo andar que ele. Como uma boa fêmea obedeci.
Saímos e eu o aguardei terminar o telefonema no canteiro.
Quando ele se voltou para mim, nem esperei dizer nada, apenas esperei o sorriso (do qual me lembrara noites a fio) e o beijei. O beijei como há muito não beijava. Um beijo que, seguindo a ordem natural, terminaria em cama. Um beijo que há muito queria retribuir, pois era sempre assim que ele me beijava, com fome. Lembro de tentar impor o slow, mas ele não dava chance nunca. Parecia que o fato de sempre demorarmos para nos encontrar o deixava com fome, e, temendo um 'delta T' sempre maior, ele queria me aproveitar por aquele instante. Um beijo até cansativo, mas, no que diz respeito ao prazer, inigualável. E assim eu o fim. Dei-lhe um beijo faminto que, durante todo ele, eu só pensava na respiração. Aquela respiração conjunta que acompanha os beijos longos, quando você e ele compartilham o mesmo oxigênio e é como se, pelo menos por aquele instante, precisassem um do outro para sobreviver. Como o ronco de um motor que pede marcha, macho e fêmea exalam seus hormônios e pensam em reprodução. É uma espécie de pause do mundo real e play do mundo sexual. Um instante em que tudo que importa é o toque dos narizes que compartilham o combustível da respiração.
Pois, assim o fiz, e depois, cai em mim.
Não sei do fora acometida, mas todos aqueles meses de espera por um mero telefonema que fora prometido para o dia 15 pesaram em mim como uma tonelada e eu disse:
-eu ia f#%$@ com você sabia. Eu sentia a sua vontade de f#%$@ comigo, mas eu tava com medo, sabia que era com você. Desgraçado, esperei tanto você me ligar, até que um dia eu tive a bendita epifania de não tratar como prioridade quem me trata como opção. F#%$@ com o primeiro que apareceu, mas precisava te dizer: pensei em você!
Parei olhei pro relógio e ouvi o barulho da porta do elevador abrindo. Etrei naquele elevador e, pelo cubículo transparente ele me olhava com uma cara de quem tentava entender, até que entendia. Apertou freneticamente o botão do elevador, mas eu já tinha descido, e talvez já estivesse envolvida em alguma trama alheia, realzação de desejo reprimido, sentada em uma poltrona acochoada comendo pipoca com uma pepsi twist, em lembrança a um velho conhecido.
Fim(...
"O amor é um acidente esperando para acontecer."
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