Não sei bem como, nem porque. Eu nunca fui muito de vagar. Meu tino racional sempre me impedira, mas naquele dia meu coeficiente de solubilidade dos problemas tinha sido atingido. Era uma tarde estranha. Acabado o inverno, o sol voltava a reinar e castigar aqueles que, diante das chuvas, haviam comemorado a sua queda. Era o fim das manhãs melancólicas e o reinado das tarde de oásis.
Sempre me perguntei como os homens no deserto se deixavam enganar por eles. Estava ali, tonta a constatar algo relacionado à refração naquele asfalto quente. Saí sem destino por aquelas ruas do outro lado da cidade, confesso que quase inéditas para mim. Comecei a observar as pessoas e tentar criar uma realidade para elas. Tarefa difícil quando se tinha tantos problemas na cabeça.Desisti e continuei a nadar pelo quarteirão.
Decidi dar uma última chance à minha criatividade e fitei um homem que saia da loja de material de construção (Qual sinal o meu inconsciente captou? Porque ele não me alertou?). Quando dei por mim ele já estava me olhando com aquele sorriso sorrateiro pelo qual eu havia me encantado anos atrás.
Não sei a que velocidade meus pensamentos chegaram, mas, até o primeiro esboço de ação, meus planos foram de um extremo ao outro e, não mais que de repente, eu, famosa por não resistir aquele homem, disparei:
- Fazem dois anos, e eu estava apaixonada por você.
Ele, meio que sem entender, continuou na minha direção e tentou um beijo cordial;
Eu me esquivei e disse:
- Sabia que eu esperei meses, que dirá anos? Procurei você em tudo e em todos. Você ficou de me ligar,lembra?
Ele desmanchou o sorriso aos poucos, balbuciou, desistiu. Fitou meu queixo. O que terá pensado? Ele adorava o meu queixo. Sempre mencionava o sinal milimetricamente centralizado. O "sinal de indiana", como ele dizia.
Não sei quais eram seus planos, mas ele os mudou e disse:
- Apaixonada? Você? É... eu cheguei a cogitar, mas você me deixou confuso. Era aquele morde/assopra. Talvez eu tenha desconfiado, mas você...
Uma raiva tomou conta de mim e, acho que por minutos ou frações de segundos, eu só olhava seus olhos...pensei em quantas vezes tinha planejado aquele encontro e como eu reagira diferente. Era eu, ali?
- Pois é.
Ãh?!
Pra cima de mim? Esqueceu? Esqueceu quem eu sou, baby?
(a voz forte e com tom de acusação começou a tremer. Tirei forças não sei de onde...)
O bonsai com o seu nome morreu pouco antes de você desaparecer. Pensei em conseguir teu número e ligar, mas você disse que me ligava depois do dia 15! E esperei, cara. Imaginei de tudo, até achei que você tivesse realmente ido pro norte, como tinha me dito uma vez, mas não. Você e eu estávamos na mesma cidade, por anos!
(minha veia cinematográfica impôs uma hesitação dramática, como em todos os filmes que eu assistira por anos pensando nele)
Sabe, você sem mim, talvez seja o mesmo cara. Mas, eu sem você sou uma pessoa melhor.
Mais alguns infernais segundos de silêncio e, quando finalmente ele esboçou uma reação (talvez o tempo de inventar uma desculpa), eu invadi o taxi parado no semáforo e mandei seguir pro segundo posto da Expedicionários, à direita.
Conto fruto da insônia.
Personagens frutos da saudade.
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