Ganhei um livro. Eu não sou muito de ganhar coisas. Uma vez me disseram que era muito difícil pensar em algo pra me dar. Acho que os melhores presentes são por pura lembrança. Algo que remete a alguém. Ás vezes compro coisas porque lembrei de pessoas. Nem sempre as presenteio. Às vezes a lembrança fica lá guardada esperando uma oportunidade, e às vezes, confesso, não entrego. Fico com a lembrança pra mim. Vai ser algo de alguém que tenho. Também faço isso com playlist. Tenho uma no youtube chamada "Portugal 5º" que nunca compartilhei com o destinatário. Hoje não seria mais tão legal porque a pessoa não tá mais em Portugal, e também não sei quantos graus faz em Lisboa agora. Mas tenho saudades de Lisboa. Devo um cartão postal a um garçom que me deu uma garrafa de vinho branco. Sempre que vejo postais lembro disso.Também tenho saudades do dono de direito da playlist, mas hoje só o que nos separa são poucos quilômetros. Alguns quilômetros e uma imensidão de desconcerto, que não tem unidade de medida, mas ainda é a imensidão que me faz escrever de vez em quando.
No livro que ganhei de uma analista amiga minha não dizia que "desse jeito eu não vou ser feliz direito" (não até onde eu li), mas diz porque eu escrevo. Um apanhado de textos jornalísticos de Marguerite Duras, onde em um deles, que fala sobre um editor literário, ela diz:
"É que o ato de escrever corresponde a uma necessidade trágica e feroz em todos os escritores, (...). Resulta sempre de um estado de solidão, sobretudo na província, em que os autores escrevem para se libertar de uma asfixia"
Nessa imensidão o ar costumava ser bem rarefeito. Hoje ele não é mais tanto. Hoje eu consigo respirar melhor, o cérebro oxigena e eu já consigo organizar o pensamento o tanto quanto isso é possível. E por conseguir respirar, hoje eu vejo que eu era a-pegada. Mais apegada àquela imensidão do que ao de quê ela me separava. Aquela imensidão era minha, e o ar sempre esteve lá. E eu escrevia, mas eu escrevia por familiaridade, pela forma da palavra. Era como se antes eu desenhasse as palavras que me eram familiares, como uma criança antes de saber ler, e hoje elas façam sentido, hoje eu as possa ler, e possa me desfazer daquelas que não cabem mais.
Claro que não é tão fácil, além da imensidão eu também era apegada à forma daquelas palavras, elas me davam alguma substância no meio daquele nada. Hoje eu consigo deixá-las ir mesmo ainda achando o desenho bonito. Só não me servem mais como antes.
Talvez o prenúncio de que exista mais um infinito de palavras que eu posso deixar vir, ou talvez porque eu simplesmente não precise mais tanto delas. Mas não de todas. Portugal ainda é uma palavra de desenho bonito e sempre vai me fazer lembrar de vinho branco.
Que Lindeza. Quase ouvi sua voz contando tudo isso. Isso porque ouvi pouco sua voz até hoje, nunca conversamos longamente. Mas o som de sua voz tá aí, nesse texto. Adorei, lindonilda. Você escreve com som.
ResponderExcluirQue Lindeza. Quase ouvi sua voz contando tudo isso. Isso porque ouvi pouco sua voz até hoje, nunca conversamos longamente. Mas o som de sua voz tá aí, nesse texto. Adorei, lindonilda. Você escreve com som.
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