Eu adoro assistir a filmes, mas como uma boa neurótica eu sempre acho que não tenho tempo pra fazer o que gosto. Assim, eu sempre tenho algo mais importante a fazer quando cogito a possibilidade de assistir a um, contudo, vivo de esmolas e depois de dias bem corridos eu olho pra televisão e penso: agora eu tenho direito.
Essa questão do direito tem aparecido bastante na minha cabeça ultimamente. Em algum momento da minha vida eu levei bem a sério os dizeres de que "você tem que fazer por onde". Bem, eu meio que generalizei, o que não foi difícil, e apliquei essa regra a tudo. Tudo mesmo. Até aquilo que para todos era natural e gratuito eu conseguia inserir dentro de uma lógica de merecimento. Foi assim com os elogios, com as amizades, com o amor de pai, mãe, irmão, avós, homens, mulheres, crianças, sucesso, dinheiro, presente... tudo. Eu poderia dizer agora que um dia eu cansei, chutei o balde e decidi que nem tudo devia ser desse jeito, mas não foi assim que aconteceu. O máximo que eu posso dizer é que de vez em quando eu canso. Eu canso porque se fazer merecedora de tudo que o universo decide levar até você é um trabalho árduo. E, dentro da lógica binária, o desmerecimento também está presente. Fica basicamente assim: tenho o que faço por onde, e o que não tenho é justamente porque fiz por onde não ter. Tá confuso? É confuso. E cansativo, e desgastante. Tem uma hora que você pensa: "pera ai! porque eu ainda não consegui isso?! Já fiz tudo o que eu podia."
Às vezes eu dou uma de doida. Por exemplo, no terceiro ano eu ouvi todo aquele discurso de professores, alunos, irmão de alunos, pais, mães e eta. de que você deve dar tudo de si em ano de vestibular. Que a dedicação deve ser total, que você deve abrir mão da diversão e demais coisas fúteis (tudo o que não for estudo). Bem, ai a minha lógica sádica me ajudou. Eu pensei: "Porra, eu estudei duro a minha vida inteira. Tirei o mínimo de notas baixas possíveis, me esforcei pra caralho vindo pra essa cidade estudar em um colégio grande, onde eu consegui me destacar. E isso não foi de graça. Eu penei, eu sofri. Se serve contra, vai servir ao meu favor também." Foi ai que eu decidi que não ia me matar de estudar. E que se eu tivesse de passar no vestibular seria por consequência de toda a minha vida escolar, não de um último suspiro de morte. Parece que funcionou. Não foi fácil, foi tipo 45 min do segundo tempo, mas eu passei.
Ai, eu resolvi deslizar essa doutrina pra minha religiosidade também. Eu fui criada dentro da igreja católica. Por muitos anos participei dos grupos da igreja, cheguei a ser missionária, mas eu nunca me questionei muito sobre o que eu tava fazendo. Não via muito nexo em todos aqueles ritos, mitos e pregações. Eu ainda preciso me questionar mais sobre isso, mas a parte que nos interessa é que: Eu sigo todas as regras que eu acho importante, e acho que existem maneiras mais efetivas de se fazer o bem. Não é porque eu não vou à missa todos os domingos e dias santos que algum deus vai me castigar, isso não condiz com a minha lógica. Ai foi quando eu decidi abandonar a igreja e seguir a minha própria doutrina. Aos poucos você vai descobrindo formas mais efetivas e pontuais de ser uma pessoa digna de algo parecido com um paraíso. A minha doutrina é baseada basicamente em sorriso, educação, respeito e gratidão. Dentro dessa lógica que eu tô explicando aqui exaustivamente isso deve me garantir algum conforto no futuro.
Mas, apesar de alguns avanços, a parte colorida não vinha por mais que eu cultivasse tintas e aquarelas. Foi ai que eu cheguei no rochedo. Porque? Porque as coisas tem de ser assim? Pra onde vai e de que vale todo esse esforço? Por mais que eu me esforçasse, eu nunca consegui estabelecer uma correspondência direta entre esforço e compensação, e olha que eu até me esforcei pra ser otimista e tal. Foi ai que eu peguei um pouco de fatalismo. Ninguém é pleno. Essa conta nunca vai fechar. Há um equilíbrio a ser mantido e as variáveis muitas vezes estão além do nosso controle. É como a balança do self-service, tem sempre a tara do prato que fica pro dono. Você nunca come exatamente o que pagou.
Ai, mais uma vez, eu me pergunto: "Sim, mas o que eu faço?". E mais uma vez a resposta: Você vai ter que ficar com isso...
As vezes a gente se esforça tanto, né? E as vezes não conseguimos aquilo que desejamos. E acabamos ficando com a sensação de que não era pra acontecer ou algo do tipo ou as pessoas colocam na nossa cabeça isso. Enfim.
ResponderExcluirEu sou mais tranquilo, acho que as coisas vem porque tem que acontecer. Acredito muito no que você falou por último, nessa logica da gente mesmo começa a pensar e questionar as coisas e fazer do nosso modo/jeito. :)
Gostei daqui.