-"Desculpe essa minha melancolia."
Era o que ela dizia com o olhar toda vez que deixava escapar quem realmente era. O que realmente pensava. Quando suas verdadeiras palavras saiam de seus lindo lábios.
E era ela. Toda aquela melancolia, aquela realidade. A atenção de quem carrega a responsabilidade do mundo nas costas, tudo isso combinando em um coquetel que a transformava linda.
Linda era sua sobriedade, porque escondia seu sorriso. O sorriso mais sincero, pois era aliviado. Ela não era daquelas que forjavam a felicidade. Por mais estranho que pareça, se um dia perderem toda a felicidade do mundo, poderão encontrar nela. Porque a dela tá guardada a sete chaves. E é da mais pura, a real, a com deformidades, uma das únicas que condizem com a verdade.
Estava sempre se desculpando. Mas pelo quê? Por ter olhos e ouvidos atentos? Por ter um coração onde supúnhamos que tivesse e um cérebro em perfeito estado? Porque recusara a lobotomia da modernidade? Porque admirava a loucura mais sã que jorrava da maior das alucinações? Porque não esperava que as coisas fossem como elas não deviam de ser? Porque tinha uma relação difícil com o seu desejo, mas preferiu isto a recusá-lo?
Porque eu haveria de desculpá-la?
Como poderia não amá-la?
Nunca conheci uma mulher tão menina. Mulher por necessidade e menina por escolha. Daquelas que se você soltar no mundo, acha sozinha o caminho de casa. Não espera pela ajuda, mas tudo o que queria era que ela chegasse. Não tenho porque desculpá-la, tenho sim, com todas as minhas forças, a missão de te fazer ver que o mundo te merece.
Como não se perder nesse labirinto infinito com paredes mutáveis?
Quando você pensa que ela se distraiu, ou que não está mais nem ai pros arredores, ela nos surpreende com aquela atenção flutuante e se coloca. Elegantemente, com a classe de poucos, um sutil dicionários faz as honras da casa.
Quando eu a vi pela primeira vez ela estava sozinha. O que, confesso, me assustou um pouco. A gente costuma não gostar de pessoas sozinhas. Fiquei pensando: "porque ela tá sozinha?" Daí vieram as 1001 hipóteses criativas que só alguém como eu poderia ter elaborado. Pensei que ela estivesse esperando alguém, mas ao final do filme ainda estava sozinha. Cogitei que não fosse daqui, por causa de sua fisionomia um pouco exótica, mas depois ela mostrou muita familiaridade com o ambiente. Não parecia estrangeira, não tinha aquela coisa que as pessoas de foram tem. Ela tinha um não-pertencimento, mas não era com o lugar em si... Eu observei, observei, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão, até que ela parou pra observar o movimento ao redor. Foi ai que eu percebi. O seu não-pertencimento era do mundo. Ela não era daqui, mas sabia o suficiente sobre nós pra se infiltrar com sucesso.
Esse foi o arremate final: eu queria conhecê-la! Eu que sempre tive essa atração pelo que é de fora não me contive ao ver aquele ser de outro planeta. Tão pequena, frágil, e ao mesmo tempo ríspida. Mas ela era vítima de um determinismo tão natural quanto o dos ouriços. Nada nos diz que eles são animais perigosos, exceto os espinhos com os quais foram presenteados. Espinhos que carregam como um castigo. Pelo que? Quem sabe algum castigo da série de Prometeu... A incapacidade de ignorar as informações que a circundam, de passar ilesa pelo mundo. Essa era a sua condenação. Viver junto aos outros que lhe pareciam tão diferentes. Até o dia em que ela conseguiu estabelecer um padrão na diferença e se viu fora daquele enquadramento. Era abstrata demais para aquele mundo concreto.
Eu passei o resto da tarde seguindo seus passos, estudando uma maneira de abordá-la. Mas como? Como? Como penetrar essa armadura? Antes do cair da noite, quando eu já desistira de minha investida, e me preparava para bater em retirada, um vendedor ambulante me aborda: "Aceita?". Eu respondo: "Não, mas obrigada."
Por algum motivo que ainda hei de descobrir e voltar aqui para contar a você, ao ouvir a minha voz de longe ela direcionou o olhar em minha direção. Quando viu que eu a vi, deu um sorriso desconcertado, daqueles que dizem "desculpa por invadir o seu espaço", e desviou o olhar. Eu não podia perder aquela oportunidade, das profundezas das saídas mais sem graça do mundo, eu disse: "Por favor, que horas?"...

