quarta-feira, 29 de maio de 2013

Era ela..



-"Desculpe essa minha melancolia."
Era o que ela dizia com o olhar toda vez que deixava escapar quem realmente era. O que realmente pensava. Quando suas verdadeiras palavras saiam de seus lindo lábios.
E era ela. Toda aquela melancolia, aquela realidade. A atenção de quem carrega a responsabilidade do mundo nas costas, tudo isso combinando em um coquetel que a transformava linda.
Linda era sua sobriedade, porque escondia seu sorriso. O sorriso mais sincero, pois era aliviado. Ela não era daquelas que forjavam a felicidade. Por mais estranho que pareça, se um dia perderem toda a felicidade do mundo, poderão encontrar nela. Porque a dela tá guardada a sete chaves. E é da mais pura, a real, a com deformidades, uma das únicas que condizem com a verdade.
Estava sempre se desculpando. Mas pelo quê? Por ter olhos e ouvidos atentos? Por ter um coração onde supúnhamos que tivesse e um cérebro em perfeito estado? Porque recusara a lobotomia da modernidade? Porque admirava a loucura mais sã que jorrava da maior das alucinações? Porque não esperava que as coisas fossem como elas não deviam de ser? Porque tinha uma relação difícil com o seu desejo, mas preferiu isto a recusá-lo?
Porque eu haveria de desculpá-la?
Como poderia não amá-la?
Nunca conheci uma mulher tão menina. Mulher por necessidade e menina por escolha. Daquelas que se você soltar no mundo, acha sozinha o caminho de casa. Não espera pela ajuda, mas tudo o que queria era que ela chegasse. Não tenho porque desculpá-la, tenho sim, com todas as minhas forças, a missão de te fazer ver que o mundo te merece.
Como não se perder nesse labirinto infinito com paredes mutáveis?
Quando você pensa que ela se distraiu, ou que não está mais nem ai pros arredores, ela nos surpreende com aquela atenção flutuante e se coloca. Elegantemente, com a classe de poucos, um sutil dicionários faz as honras da casa.
Quando eu a vi pela primeira vez ela estava sozinha. O que, confesso, me assustou um pouco. A gente costuma não gostar de pessoas sozinhas. Fiquei pensando: "porque ela tá sozinha?" Daí vieram as 1001 hipóteses criativas que só alguém como eu poderia ter elaborado. Pensei que ela estivesse esperando alguém, mas ao final do filme ainda estava sozinha. Cogitei que não fosse daqui, por causa de sua fisionomia um pouco exótica, mas depois ela mostrou muita familiaridade com o ambiente. Não parecia estrangeira, não tinha aquela coisa que as pessoas de foram tem. Ela tinha um não-pertencimento, mas não era com o lugar em si... Eu observei, observei, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão, até que ela parou pra observar o movimento ao redor. Foi ai que eu percebi. O seu não-pertencimento era do mundo. Ela não era daqui, mas sabia o suficiente sobre nós pra se infiltrar com sucesso.
Esse foi o arremate final: eu queria conhecê-la! Eu que sempre tive essa atração pelo que é de fora não me contive ao ver aquele ser de outro planeta. Tão pequena, frágil, e ao mesmo tempo ríspida. Mas ela era vítima de um determinismo tão natural quanto o dos ouriços. Nada nos diz que eles são animais perigosos, exceto os espinhos com os quais foram presenteados. Espinhos que carregam como um castigo. Pelo que? Quem sabe algum castigo da série de Prometeu... A incapacidade de ignorar as informações que a circundam, de passar ilesa pelo mundo. Essa era a sua condenação. Viver junto aos outros que lhe pareciam tão diferentes. Até o dia em que ela conseguiu estabelecer um padrão na diferença e se viu fora daquele enquadramento. Era abstrata demais para aquele mundo concreto.
Eu passei o resto da tarde seguindo seus passos, estudando uma maneira de abordá-la. Mas como? Como? Como penetrar essa armadura? Antes do cair da noite, quando eu já desistira de minha investida, e me preparava para bater em retirada, um vendedor ambulante me aborda: "Aceita?". Eu respondo: "Não, mas obrigada."
Por algum motivo que ainda hei de descobrir e voltar aqui para contar a você, ao ouvir a minha voz de longe ela direcionou o olhar em minha direção. Quando viu que eu a vi, deu um sorriso desconcertado, daqueles que dizem "desculpa por invadir o seu espaço", e desviou o olhar. Eu não podia perder aquela oportunidade, das profundezas das saídas mais sem graça do mundo, eu disse: "Por favor, que horas?"...


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Você vai ter que ficar com isso II

Eu adoro assistir a filmes, mas como uma boa neurótica eu sempre acho que não tenho tempo pra fazer o que gosto. Assim, eu sempre tenho algo mais importante a fazer quando cogito a possibilidade de assistir a um, contudo, vivo de esmolas e depois de dias bem corridos eu olho pra televisão e penso: agora eu tenho direito.
Essa questão do direito tem aparecido bastante na minha cabeça ultimamente. Em algum momento da minha vida eu levei bem a sério os dizeres de que "você tem que fazer por onde". Bem, eu meio que generalizei, o que não foi difícil, e apliquei essa regra a tudo. Tudo mesmo. Até aquilo que para todos era natural e gratuito eu conseguia inserir dentro de uma lógica de merecimento. Foi assim com os elogios, com as amizades, com o amor de pai, mãe, irmão, avós, homens, mulheres, crianças, sucesso, dinheiro, presente... tudo. Eu poderia dizer agora que um dia eu cansei, chutei o balde e decidi que nem tudo devia ser desse jeito, mas não foi assim que aconteceu. O máximo que eu posso dizer é que de vez em quando eu canso. Eu canso porque se fazer merecedora de tudo que o universo decide levar até você é um trabalho árduo. E, dentro da lógica binária, o desmerecimento também está presente. Fica basicamente assim: tenho o que faço por onde, e o que não tenho é justamente porque fiz por onde não ter. Tá confuso? É confuso. E cansativo, e desgastante. Tem uma hora que você pensa: "pera ai! porque eu ainda não consegui isso?! Já fiz tudo o que eu podia."
Às vezes eu dou uma de doida. Por exemplo, no terceiro ano eu ouvi todo aquele discurso de professores, alunos, irmão de alunos, pais, mães e eta. de que você deve dar tudo de si em ano de vestibular. Que a dedicação deve ser total, que você deve abrir mão da diversão e demais coisas fúteis (tudo o que não for estudo). Bem, ai a minha lógica sádica me ajudou. Eu pensei: "Porra, eu estudei duro a minha vida inteira. Tirei o mínimo de notas baixas possíveis, me esforcei pra caralho vindo pra essa cidade estudar em um colégio grande, onde eu consegui me destacar. E isso não foi de graça. Eu penei, eu sofri. Se serve contra, vai servir ao meu favor também." Foi ai que eu decidi que não ia me matar de estudar. E que se eu tivesse de passar no vestibular seria por consequência de toda a minha vida escolar, não de um último suspiro de morte. Parece que funcionou. Não foi fácil, foi tipo 45 min do segundo tempo, mas eu passei.
Ai, eu resolvi deslizar essa doutrina pra minha religiosidade também. Eu fui criada dentro da igreja católica. Por muitos anos participei dos grupos da igreja, cheguei a ser missionária, mas eu nunca me questionei muito sobre o que eu tava fazendo. Não via muito nexo em todos aqueles ritos, mitos e pregações. Eu ainda preciso me questionar mais sobre isso, mas a parte que nos interessa é que: Eu sigo todas as regras que eu acho importante, e acho que existem maneiras mais efetivas de se fazer o bem. Não é porque eu não vou à missa todos os domingos e dias santos que algum deus vai me castigar, isso não condiz com a minha lógica. Ai foi quando eu decidi abandonar a igreja e seguir a minha própria doutrina. Aos poucos você vai descobrindo formas mais efetivas e pontuais de ser uma pessoa digna de algo parecido com um paraíso. A minha doutrina é baseada basicamente em sorriso, educação, respeito e gratidão. Dentro dessa lógica que eu tô explicando aqui exaustivamente isso deve me garantir algum conforto no futuro.
Mas, apesar de alguns avanços, a parte colorida não vinha por mais que eu cultivasse tintas e aquarelas. Foi ai que eu cheguei no rochedo. Porque? Porque as coisas tem de ser assim? Pra onde vai e de que vale todo esse esforço? Por mais que eu me esforçasse, eu nunca consegui estabelecer uma correspondência direta entre esforço e compensação, e olha que eu até me esforcei pra ser otimista e tal. Foi ai que eu peguei um pouco de fatalismo. Ninguém é pleno. Essa conta nunca vai fechar. Há um equilíbrio a ser mantido e as variáveis muitas vezes estão além do nosso controle. É como a balança do self-service, tem sempre a tara do prato que fica pro dono. Você nunca come exatamente o que pagou.
Ai, mais uma vez, eu me pergunto: "Sim, mas o que eu faço?". E mais uma vez a resposta: Você vai ter que ficar com isso...

quinta-feira, 2 de maio de 2013

à deriva...

O amor e a melancolia tem uma coisa interessante em comum: O esmagamento pelo objeto. 
Ambos te esmagam, te sobrecarregam, te exaurem. Eu não nego a minha veia (meu sistema cardíaco inteiro) melancólica, mas eu sempre neguei meu amor. Exibia a melancolia com orgulho, como uma grande resistência, quase uma revolução. Não às ditaduras de sorriso amarelo, o meu sorriso era verdadeiro quando tinha de vir. Ainda o é.
O amor tem algo de anti-melancólico, mesmo sendo quase uma forma de melancolia. Uma melancolia do Outro. Mas, afinal, toda melancolia não vem do Outro? Ele tem algo de eufórico também, te faz acreditar, te faz esquecer. Eu não sei nem se é esquecer propriamente dito, mas meio que te faz mudar de perspectiva. Você ainda sabe o mundo em que vive, mas a perspectiva do mundo do Outro se torna mais atraente, quase te suga. Te faz repensar princípios, te deixa boba, bêbada, bolada.
Tem uma frase de que gosto muito, não sei sitá-la literalmente, mas é do Filme "Grandes Expectativas". Ela fala sobre uma menina que fora ensinada durante toda a sua vida sobre os perigos do sol, mas um dia, quando se vê mulher, o sol a convida para sair e brincar. O sol é uma metáfora para o amor. A menina crescera sendo advertida sobre os perigos do amor, e instruída sobre como nunca se deixar dominar, submeter. É essa a minha metáfora. Eu cheguei perto, muito perto de acreditar que poderia estar acima (ou além, ou alheia) de toda essa esfera de envolvimento, mas quebrei a cara. Quebrei a cara feio. Depois de anos de trabalho e elaboração, colocando meteoros gigantes sobre toda e qualquer possível fonte de amor/dependência/afeto, me vejo diante de um gêiser insufocável. Um gêiser que emana água quente pra me aquecer numa noite de frio. E que recusa isso? Nós, nós neuróticos sempre recuamos quando estamos frente ao desejo. Eu recusei, relutei, e me entreguei. Aceitei. Vi-me vulnerável e tomada por uma vontade da qual nunca tivera notícias. O que é isso? O que eu faço com isso? Como faz? Estou nua, despida de toda e qualquer resistência e proteção. Eis o que sou, e para quem sou, para você. Eu finalmente assumira a posição de objeto, de querer ser objeto. Mas, histórias de amor não duram mais 90 minutos, né? Não essa.
Ficou difícil demais. Me apaixonei por meu carbono quiral, meu reflexo masculino, e isso se fez da ordem do impossível. Não estabeleceu-se comunicação. É sempre no não-dito, inter-dito, quase-dito, meio-dito. As palavras engasgam na boca, quase como quando te falta o vocabulário. E nesse mar de palavras sufocadas eu estou me afogando. Ainda vejo a luz do sol e me sinto atraída por ela, mas logo esses raios serão bloqueados por algum protetor fator 50.