domingo, 8 de abril de 2012

Quando eu soltar a minha voz...




O cantor que exerce seu dom é alguém que da origem a outro ser dentro de si, a voz. Não falo de uma voz como todas as outras vozes, uma voz falada, dessa que os bebês penam pouco para começar a utilizar. Não falo dessa voz que é gasta por ai à toa em conversas sem sentido que sempre acabam por desaguar no sexo dos anjos. Não falo da voz dos vendedores ambulantes ou aquela mesma que os parlamentares usam para jogar injúrias no colo dos seus companheiros e para persuadir os eleitores que se sentem importantes uma vez a cada quatro anos. Não falo da voz usada com fins racionais.
A voz à qual me refiro é uma entidade que coabita o corpo de alguns dos homens. Eu falo de uma voz que geralmente se cala. Falo de uma voz que é emoção, que é válvula de escape, que é sublimação.
Muitos são os caminhos que o levaram a achar a sua voz, mas depois disso uma coisa é certa: você achou um outro que é poderoso e vive dentro de você. Um outro que talvez ainda não tenha forma, volume ou identidade e, assim, como na vida cotidiana, o auto conhecimento será o caminho para dar autonomia a esse novo que chegou. Uma voz tem que ter volume. Tem que se fazer ouvir, tem que se fazer provocar emoções. As emoções que você, dono dela (ou seria ela sua dona?), guarda, reprime, por inúmeros motivos e que uma hora, mais cedo ou mais tarde, terá que soltá-las. Voz é emoção. Voz é emoção em ondas sonoras.        
A sua voz tem que ter identidade. Nenhum ser humano tem o mesmo timbre que o outro. A voz é uma espécie de subjetividade, essa propriedade que faz de nós, homens, seres tão diferenciados. A identidade da sua voz será a sua personalidade impressa nela. Vai ser aquilo pelo qual você se fará ouvido. Pode ser um processo natural, sua voz pode já vir com algo muito peculiar que a diferencie, mas, caso não seja assim, será um trabalho de caminhada que você fará junto com ela. Você descobrirá o seu jeito único de cantar, de soltar a voz.
A sua voz será o seu consolo. O consolo no final dos dias. O consolo diante das intempéries da vida. O conforto diante dos seus fracassos. O conforto diante do amor que não te, o conforto diante da sociedade que te esmaga, o conforto diante de suas atividades mecânicas e forçadas, o conforto diante das pequenas humilhações diárias, o conforto diante da intransigência dos grandes quando se é pequeno, o conforto diante do esmagamento dos seus sonhos. Não importa o quanto te anulem, não podem tirar a sua voz.

Nenhum comentário:

Postar um comentário