O
cantor que exerce seu dom é alguém que da origem a outro ser dentro de si, a voz.
Não falo de uma voz como todas as outras vozes, uma voz falada, dessa que os
bebês penam pouco para começar a utilizar. Não falo dessa voz que é gasta por
ai à toa em conversas sem sentido que sempre acabam por desaguar no sexo dos
anjos. Não falo da voz dos vendedores ambulantes ou aquela mesma que os
parlamentares usam para jogar injúrias no colo dos seus companheiros e para
persuadir os eleitores que se sentem importantes uma vez a cada quatro anos.
Não falo da voz usada com fins racionais.
A
voz à qual me refiro é uma entidade que coabita o corpo de alguns dos homens.
Eu falo de uma voz que geralmente se cala. Falo de uma voz que é emoção, que é
válvula de escape, que é sublimação.
Muitos
são os caminhos que o levaram a achar a sua voz, mas depois disso uma coisa é
certa: você achou um outro que é poderoso e vive dentro de você. Um outro que
talvez ainda não tenha forma, volume ou identidade e, assim, como na vida
cotidiana, o auto conhecimento será o caminho para dar autonomia a esse novo
que chegou. Uma voz tem que ter volume. Tem que se fazer ouvir, tem que se
fazer provocar emoções. As emoções que você, dono dela (ou seria ela sua
dona?), guarda, reprime, por inúmeros motivos e que uma hora, mais cedo ou mais
tarde, terá que soltá-las. Voz é emoção. Voz é emoção em ondas sonoras.
A
sua voz tem que ter identidade. Nenhum ser humano tem o mesmo timbre que o
outro. A voz é uma espécie de subjetividade, essa propriedade que faz de nós,
homens, seres tão diferenciados. A identidade da sua voz será a sua
personalidade impressa nela. Vai ser aquilo pelo qual você se fará ouvido. Pode
ser um processo natural, sua voz pode já vir com algo muito peculiar que a
diferencie, mas, caso não seja assim, será um trabalho de caminhada que você
fará junto com ela. Você descobrirá o seu jeito único de cantar, de soltar a
voz.
A
sua voz será o seu consolo. O consolo no final dos dias. O consolo diante das intempéries
da vida. O conforto diante dos seus fracassos. O conforto diante do amor que
não te, o conforto diante da sociedade que te esmaga, o conforto diante de suas
atividades mecânicas e forçadas, o conforto diante das pequenas humilhações
diárias, o conforto diante da intransigência dos grandes quando se é pequeno, o
conforto diante do esmagamento dos seus sonhos. Não importa o quanto te anulem,
não podem tirar a sua voz.

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