quarta-feira, 21 de dezembro de 2011


Moram em mim 
fundos de mares, estrelas-d'alvas
ilhas, esqueletos de animais,
nuvens que não couberam no céu,
Razões mortas, perdões, condenações,
Gestos de amparo incompleto,
O desejo do meu sexo
E a vontade de atingir a perfeição.
Adolescências cortadas, velhices demoradas,
Os braços de Abel e as pernas de Caim.
Sinto que não moro.
Sou morado pelas coisas como a terra das sepulturas
É habitada pelos corpos.
Moram em mim
Gerações, alegrias em embrião,
Vagos pensamentos de perdão.
Como na terra das sepulturas,
Mora em mim o fruto podre,
Que a semente fecunda repetindo a vida
No sereno ritmo da Origem.
Vida e morte,
Terra e céu, 
Podridão, Germinação,
Destruição e criação.

Adalgisa Nery. "Cemitério Adalgisa", de Poemas (1937)

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