quarta-feira, 30 de abril de 2014

Condenação

A ti minha juventude, meu frescor, minha inexperiência. 
A ti meus sonhos de amor e loucura. 
A ti minha entrega, tudo que fui esteve em tuas mãos. 
Estive eu, nua, no calor do teu corpo. 
Lá estavas tu entre o suor das minhas pernas. 
A mim a tua sede, tua gana o teu ódio. 
Me deste o que podia dar. 
Te dei o que não podias (nem poderá) receber. 
À tua embarcação mil piratas invadiram e invadirão
Às tuas oiças já imunes ao canto de mil sereis, os bons sons não chegarão.
Nosso cambio foi de fluidos tão fluidos quanto o sentimento que tu pode suportar... 
És líquido, volátil, escorregadio, tua embarcação não possui âncora, 
arquitetura tão condizente com a leveza do teu ser. 
Eu sou o próprio porto, recebo as embarcações que por aqui quiserem ancorar, 
mas entre eu e você a interseção sublimou e sumiu no ar.
Depois de ti, aos que vierem, portas abertas.
Se tu voltares, com efeito de vingança do meu frágil coração,
condenada à prisão do primeiro amor, poros abertos.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Com que roupa eu vou?

Uma análise psicoanatomosociológica das necessidades de encaixe humanas.

Qualquer um que passe pelo viés da saúde vai se deparar com o paradigma do diagnóstico. É compreensível que para tentar "tratar" de algo, nós estejamos bem inteirados do que é o "algo", e não é isso que eu venho aqui questionar (por mais que também no corpo a moda do diagnóstico mereça questionamentos). 
O que tem me incomodado mais é que nessa onda de enquadre a variabilidade humana vem diminuindo consideravelmente, e isso faz de um mundo já não tão interessante mais desinteressante ainda. Primeiro eu pensei, depois de ouvir várias vezes palavras do tipo depressão, bipolar, desequilíbrio e mais uma porção de outras que seriam perfeitamente justificáveis considerando que estou mergulhada no contexto da saúde mental, na consistência daqueles autodiagnósticos. (vejam que eu já tô dando o abono da compulsão diagnóstica dos profissionais). Bem, o ponto é exatamente esse. As pessoas parecem não suportar mais serem apenas pessoas. O que me parece é que elas estão desesperadamente tentando caber em algo. Mas em quê? Padrões. Sejam eles os diagnósticos, sejam eles os padrões sociais ou de beleza. Quando estudei o desenvolvimento humano na faculdade vi que essa era uma característica comum aos adolescentes. 
Muitos falam da infantilização dos adulto, pois eu lhes falo da adolescentização deles.
Não quero fazer nenhum juízo final a esse respeito, mas isso tem me intrigado muito.
Primeiro eu percebi a enxurrada de diagnósticos. Estranhei, mas beleza... status quo? Depois eu vi as pessoas se enquadrando em cada vez mais categorias, de "personalidade", que sejam. Depois eu vi as pessoas se definindo quanto à sua aparência. Dai vi que se você não é segundo o padrão, espera-se que você realmente assuma a responsabilidade disso e viva em função de caber nele. Seja uma calça 38 ou em uma barriga negativa. Que número eu visto? Aquele que veste as minhas coxas fartas! Depois eu vi as pessoas se engessarem dentro de um gênero musical. E quiseram me engessar também (que absurdo o que fizeram com a arte)! Se você gosta de rock é roqueiro? Seus ouvidos estariam tapados ao jazz, ou ao soul, ou à música irlandesa, que seja? De que eu gosto? Eu gosto de música. E lhe digo, quanto mais experimental e misturada ela me parecer, melhor! E por ai vão as linhas, categorias, patamares, espécies... roupas!
São as roupas. São as formas que saem cada vez menores e com menos variabilidade. A criatividade, a plasticidade humana está se esgotando? Não era o mercado que deveria se adequar às nossas demandas e necessidades? Não era ele que devia vir até mim? Hoje o que temos são pessoas fechando os ouvidos, cerrando os olhos, amarrando os braços e as pernas, cortando as barrigas barrigas, tudo isso pra entrarem em uma roupa que não lhes pertence.



Na foto um programa de TV apresentado por ArLINDO  e IsaBELLA, onde alguém que te acha brega os chama para que eles entrem na sua casa e rasguem suas roupas favoritas. 
P.S.: Você deixa e se sente feliz com isso.

domingo, 6 de abril de 2014

Das tarefas solitárias...

Ultimamente tudo o que se esforça em parecer tem me irritado.
Talvez porque ultimamente o meu movimento tem sido o de ser e isso tem me custado.
Me parece que parecer é uma covardia diante do ser.
Parecer é mais fácil e vai no sentido da corrente.
Ser é tarefa solitária e te exige inclusive que o faça por si mesmo.
Inclusive a solidão é algo que só se aprende por si mesmo.
A solidão talvez seja o que mais se parece com o ser.
Mas devemos considerar: o Ser não existe.
O ser é um plano fracassado sucessivamente.
Um desenho sem rascunho talhado na carne.
O ser passa pelas entranhas.
O parecer passa pelas vestes.
Um é roupa, outro é víscera.